IHU 2006

Parricídio, Niilismo e Destruição da Tradição (11.09.2006)

IHU ON-LINE (Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Ano VI, Nro 195)

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“O parrícidio representa o corte filosófico e psicológico com o passado. No limite, o “passado é Deus”, pois ele é nossa origem, somos da “raça de Deus”. O parricídio é figura do pecado da recusa de Deus e da constituição do orgulho de ser independente (ilusão) ontologicamente. A modernidade, sempre sob a ótica de uma teologia da modernidade, representa a defesa filosófica do parricídio: matamos Deus, matamos o Pai, somos livres para exercermos o nada; esse nada é o niilismo articulado em todas as frentes, mas que Ivan, ao final do livro, parricida por excelência, percebe que diante de si está o vazio, o Diabo ou seu duplo, um cínico niilista. Ele vê o Mal em operação”. Esta afirmação é do filósofo Luiz Filipe Pondé, em entrevista exclusiva, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, “a modernidade é uma experiência radical do nada, dissolução da tradição, destruição da crença na validade do mundo espiritual, uma verdadeira transcendência para o nada”.


 

IHU – Por que não é possível apreender a obra de Dostoiévski a fundo sem compreender seu pensamento religioso?

PONDÉ – Existe um grande preconceito contra a religião no mundo acadêmico. A ignorância travestida de crítica é grande. Mesmo a teologia capitulou, em grande parte, diante dessa crítica e do vício da teoria social. O cristianismo fornece categorias que fundam a obra de Dostoiévski como “ascese no deserto”, “santidade”, “mal como decomposição”, “responsabilidade do indivíduo diante do Mal e não do contexto”, além, é claro, de inúmeras declarações do próprio autor. Isso não significa que outras áreas do conhecimento não sejam importantes. Para um autor que afirma a alma, como se pode reduzi-lo a categorias materialistas e contextualistas meramente? O conhecimento da filosofia cristã ajuda a entender a profundidade do drama que é pneumatológico, e não psicológico em sua obra, afirmação do próprio Dostoiévski.

IHU – Por que razão o personagem sem nome de Memórias do Subsolo, juntamente com Raskólnikov, de Crime e Castigo, e Ivan [*], de Os irmãos Karamázov, são considerados a trilogia dos agoniados de Dostoiévski?

PONDÉ – São homens que trazem à superfície o mundo “reprimido” do subsolo; esse mundo é o mundo da alma em decomposição pela ação do pecado que prende o homem num funcionamento racionalista e egóico. Todos eles são homens que enfrentam e experimentam essa denudatio de uma alma oprimida entre um intelecto que roda no vazio, alimentando-se de teorias psicológicas ou sociológicas ou filosóficas “do momento”, mas que estão a serviço de uma mentira que é a liberdade humana diante de sua opção contínua pelo Mal. O subsolo é esse movimento agônico de confrontar a verdade. Ser um homem do subsolo é descortinar o Mal em si.

IHU – Partindo da crítica do escritor ao niilismo, podemos dizer que a religião é a saída, a transcendência para esse fenômeno?

PONDÉ – Sim, mas com atenuantes. A religião como experiência concreta e não um discurso teórico sobre a existência de Deus. O que Ivan fala é que “logicamente” um mundo sem Deus e sem alma imortal é niilista, mas ele é o exemplo de que saber disso de nada adianta…

IHU – Como sua crítica ao niilismo se relaciona com sua crítica à modernidade?

PONDÉ – A modernidade é uma experiência radical do nada, dissolução da tradição (a figura do parricida é isso), destruição da crença na validade do mundo espiritual, uma verdadeira transcendência para o nada. As ciências humanas modernas e seu niilismo científico das “teorias do meio” é uma sofisticação que nadifica a experiência moral humana; todavia, existe em Dostoiévski uma teologia da modernidade que “santifica” o niilismo como figura da experiência do deserto produtora de consciência da condição humana, e nesse sentido não se pode falar de uma simples diabolização da modernidade, e sim de um envolvimento do Mal pela presença de Deus que na realidade se impõe na medida em que, ao final, a decomposição pode levar à consciência da noite escura da alma e a modernidade seria isso no plano histórico.

IHU – Como Dostoiévski lida com a questão do Mal em seus livros?

PONDÉ – O Mal é real na medida em que ele é um “impulso” para a descriação, a dissolução do ser (sempre da alma na experiência da agonia), como disse na questão acima.

IHU – Em Crítica e Profecia o senhor afirma que, em O Idiota e em Os irmãos Karamázov, Dostoiévski define melhor sua idéia de pessoa religiosa. O senhor se refere a Míchkin e Aliócha? Poderia dar mais detalhes?

PONDÉ – Uma pessoa religiosa é alguém que se move sob o espectro da presença de Deus. Esse movimento faz dentro da economia estética do romance a experiência da ordem de que a personagem é acompanhada no seu pensamento e na sua atividade por elementos que transcendem o plano psicológico ou o intelecto imanente. Sônia é um exemplo: a ingenuidade, a quebra da expectativa do comportamento ‘normal’ em situações esperadas, a referência constante ao modelo do Cristo e a superação da atitude utilitarista são sempre indicações dessa Presença. Em O Idiota, por exemplo, ao levar uma bofetada injusta no lugar da irmã, o Príncipe pensa na vergonha que sentirá o agressor. Sônia não odeia seu pai, enfim, fragmentos de santidade e amor improváveis.

IHU – É possível tecer uma aproximação entre a figura de Míchkin e Jesus Cristo, partindo do pressuposto de que, ao intitular a obra de O Idiota, Dostoiévski faz, indiretamente, menção a alguém que fala seu próprio idioma, como Jesus o fazia, incompreendido pela maioria?

PONDÉ – Sim, conforme mencionei anteriormente. O idiota é o Cristo inclusive na medida em que ele fracassa no mundo dos homens. Além disso, ele fracassa na lógica humanista do homem que é apreensível pela racionalidade egóica. Estar preso ao sucesso no mundo é indicação de presença do pecado.

IHU – Por que Dostoiévski entende os ateus como decompostos em vida?

PONDÉ – Os ateus representam filosoficamente o nada em operação afirmativa. Sendo um “conceito”, o ateísmo, crença negativa, alimenta a destruição da alma na medida em que o intelecto é parasitado pela negação de Deus, esse “conceito parasita” produz uma cegueira contínua, racionalmente articulada; a decomposição está em tudo, no ateísmo ela assume um modus operandi sofisticado conceitualmente.

IHU – Qual é a relação entre parricídio e morte da tradição em Os irmãos Karamázov?

PONDÉ – O parricídio representa o corte filosófico e psicológico com o passado. No limite, o “passado é Deus”, pois ele é nossa origem, somos da “raça de Deus”. O parricídio é figura do pecado da recusa de Deus e de constituição do orgulho de ser independente (ilusão) ontologicamente. A modernidade, sempre sob a ótica de uma teologia da modernidade, representa a defesa filosófica do parricídio: matamos Deus, matamos o Pai, somos livres para exercermos o nada; esse nada é o niilismo articulado em todas as frentes, mas que Ivan, ao final do livro, parricida por excelência, percebe que diante de si está o vazio, o Diabo ou seu duplo, um cínico niilista. Ele vê o Mal em operação. O amor pela realidade é o signo máximo no cristianismo, filho do judaísmo, essa religião que prefere sempre a realidade contra a fantasia, nela o pessimismo é sempre um pecado sofisticado. A modernidade é parricida com distinção e louvor, é militante e interpreta isso como liberdade, ao invés de perceber que essa liberdade é a do nada. A figura do Pai humano representa a consciência da dependência. Odiar o Pai é, no fundo, uma das marcas essenciais de nossa desgraça.

[1] Ivan Fiodórovith Karamázov: personagem de Os irmãos Karamázov, intelectual e niilista que “doutrinou” o meio-irmão Smierdiákov, criado da casa, de que “tudo é permitido”. O diálogo conhecido como Grande Inquisidor, no qual essa afirmação é feita, acontece entre Ivan e Aliéksiei, o filho religioso. (Nota da IHU On-Line)

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A fé é dada pela Graça (18.12.2006)

“Penso, seguindo Agostinho, que fé é dada pela Graça, não acho que existam fórmulas”

IHU ON-LINE (Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Ano VI, Nro 209)

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Pondé, em entrevista exclusiva à IHU On-Line, assinala: “Acredito ser essencial que resistamos às bobagens modernas que transformaram tudo em auto-ajuda”.

 

IHU – Cristão no século XXI

LUIZ FELIPE PONDÉ – Um dos motivos para ser cristão hoje seria recuperar a sabedoria da tradição cristã anterior às manias e aos dogmas modernos. Ser cristão pode significar muitas coisas. Interessa-me especificamente o modo como o pensamento cristão se constituiu como crítica do dogma humanista da perfectibilidade. Acho a reflexão sobre o orgulho central na economia psíquica humana. Acredito ser essencial que resistamos as bobagens modernas que transformaram tudo em auto-ajuda.

IHU – “Só se guarda aquilo que se dá”

PONDÉ – Penso que a obsessão pela”’esperança” atrapalha a condição cristã. Sei o quanto isso pode soar estranho para uma sensibilidade que prefere pensar mais na ressurreição como “promessa” a ser cobrada. Não penso na segunda vinda de Cristo. Quanto a argumentos em favor da crença, prefiro pensar na sofisticação do olhar cristão sobre a natureza humana. Penso, seguindo Agostinho, que fé é dada pela Graça, não acho que existam fórmulas. Quanto ao Deus Trino, a idéia de Um Deus que encarna e sofre uma dor infinita por amor a maior de todas as idéias éticas; acho risível quando o cristianismo busca seus fundamentos de reflexão ética no humanismo marxista ou qualquer “novidade” de 200 anos. A idéia da Paixão de Deus na cruz parece-me imbatível. Para além das manias exageradas do “gozo pela dor”, a chave é perceber que só se guarda aquilo que se dá.

IHU – Olhar crítico

PONDÉ – Não me interessa o modismo ambiental e o panteísmo naturalista. Com isso, não quero desqualificar a preocupação sincera com a natureza, mas acho uma prisão “salvar” o cristianismo fazendo de Francisco de Assis um ambientalista medieval; acho que um olhar crítico sobre os excessos da sociedade do progresso e da autonomia racional e volitiva pode ser muito mais interessante.

IHU – Saber a estrutura do átomo não muda nossa condição metafísica

PONDÉ – Acho que há compatibilidade entre os discursos de fé e razão. A “crença” na ciência é um modo novo de crendice. Nada nela nos permite acreditar nela como sistema de orientação no mundo ou de valores. Saber a estrutura do átomo, para além dos modismos quânticos (esse panteísmo requentado), em nada muda nossa condição metafísica.

IHU – Paulo de Tarso e o cristianismo

PONDÉ – Paulo é uma fonte fortemente primária – não há cristianismo sem ele. Acho que ele seja o grande primeiro filósofo do cristianismo. A continuidade do debate interno ao judaísmo se dá nele, tratando-se de uma peça central na relação entre questões que afetam ambas as religiões e pode ser pedra de toque de um diálogo filosófico entre as duas religiões.

IHU – Desafios do cristianismo

PONDÉ – Eu acrescentaria que uma função importante é resistir à dogmática moderna, oferecer um pouco de inércia construtiva à fúria narcísica moderna (coisa que, na minha opinião, nem toda a teologia cristã entende isso, transformando-se em torcida uniformizada da modernidade, mas enfim, como dizia Heine sobre muitos teólogos cristãos, “só se é traído pelos seus”). Penso que o cristianismo, como outras grandes tradições têm o papel e possibilidade (por serem pré-modernas) de nos ajudar a superar esse impasse e delírio que caímos nos últimos 300 anos: idolatria da ciência, obsessão pela felicidade, enfim, trazer a crítica a nós, babelianos.

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