Alain de Libera

Fonte da entrevista: desconhecida

(se alguém souber onde esta entrevista foi publicada, por favor, nos informe)

PONDÉ: O que teríamos a aprender -para além do exercício disciplinado da pesquisa que nos ensinado na formação acadêmica em filosofia-com um pensamento que peca por ser ao mesmo tempo metafísico e teologicamente orientado? O filósofo norte-americano Richard Rorty há muito tempo sintetizou isso, dizendo que o vocabulário teológico é decadente e sem significado cognitivo.

ALAIN DE LIBERA: Há muito a aprender com a teologia e a religião intelectualmente articulada, como é o caso do pensamento medieval. Sei que você se refere àquela idéia que normalmente ouvimos de pessoas que se acham inteligentes, como muitos intelectuais e comentaristas de programas supostamente eruditos n aTV, que, quando se vêem diante de “barbarismos”, soltam aquele lugar-comum “oh, que horror, voltamos à Idade Média!”, no sentido de que, naquela situação “bárbara”, apagou-se a luz da razão. Eu diria que, em certas situações, seria melhor voltar à Idade Média, principalmente sem se tratando de filosofia. Arriscaria dizer que a filosofia medieval tardia é, de certa forma, o outono da filosofia.


PONDÉ: Isso significa que hoje é que vivemos “nas trevas”?

ALAIN DE LIBERA: Onde mais temos judeus, cristãos e islâmicos dialogando lado a lado, desenvolvendo argumentos que buscam algum consenso lógico? Por exemplo, toda essa discussão sobre o diálogo inter-religioso e o drama do fundamentalismo religioso atualmente é um exemplo claro da ignorância pós-medieval: pensamos que podemos discutir com indivíduos para os quais suas formas de vida são alicerçadas em Deus, unicamente a partir de pressupostos socieconômicos, psicológicos ou políticos. Obviamente tais pressupostos fazem parte do tratamento intelectual de problemas humanos, mas não há como discutir fundamentalismo religioso sem conhecimento sólido de religião e teologia. É um erro clássico do ocidental moderno pensar que seus argumentos anti-religiosos tenham valor para alguém comoo um religioso fundamentalista; o terreno da discussão é antes de tudo teológico e filosófico, o diálogo deve ser aberto nesse lugar em que religião e pensamento se encontram. Devemos ser pouco otimistas com o alcance de nossas possibilidades em lidar com os problemas religiosos atualmente, se insistirmos nessa forma de ignorância.


PONDÉ: O erro estaria em pensarmos que onde há religião não há atividade inteligente e vice-versa?

ALAIN DE LIBERA: Claro. Podemos perceber esa ignorância com relação ao passado medieval e à espessura de sua atividade filosófica e telógica quando, por exemplo, ouvimos referências ao paraíso “andaluz”, porque judeus, islâmicos e cristãos viviam lado a lado em “tolerância religiosa”. Normalmente se toma Averróes (1126-98) como esse símbolo andaluz da “tolerância”. Não há “tolerância religiosa” na Andaluzia, esse conceito é iluminista, portanto, posterior. Pensar assim é anacronismo. Para falar em tolerância é preciso pressupor a idéia de que não vale a pena, por uma série de razões, discutir os argumentos teológicos do outro.


PONDÉ: A idéia filosófica de tolerância dessa forma aparece como um tipo sofisticado de “preguiça” intelectual?

ALAIN DE LIBERA: Sim. O que temos na filosofia da Idade Média, que é sua característica diferencial, é sua batalha de argumentos; não há tolerância de idéias, o que há é a busca de consenso argumentativo, o que implica necessariamente a idéia de que as partes entendem que é importante compreender logicamente e avaliar as formas religiosas de vida e pensamento do outro. A pergunta filosófica medieval é: o que autoriza intelectualmente você, a partir do seu livro religioso de referência, afirmar o que afirma? Averróes, nesse sentido, representa sim o momento anterior a um certo fracasso da filosofia. A modernidade desqualifica a tradição, atitude absurda pra o medieval, e com isso mergulha nas trevas. A filosofia medieval tardia é um luto filosófico. Sem apropriação da tradição religiosa e seu tratamento intelectual, não há pensamento possível. Mesmo a última encíclica do papa [João Paulo Segundo, papa na época desta entrevista] sobre fé e razão é triste nesse sentido: se um medieval a lesse, a consideraria “ultrapassada”.


POND: Mas conceitos do tipo “pecado” e “Mal” podem ser consistentes para as ciências humanas? Um ilustrado afirmaria que o Mal é uma função da sociologia da miséria. Ele pode mesmo “sacar” Bataille e fazer um elogio ao charme da transgressão.

ALAIN DE LIBERA: Claro que o assalto que o FMI está fazendo a vocês e argentinos não pode ser explicado unicamente pelo conceito de Mal. Mas daí a supor que esse tesouro negro, que é a cultura ancestral que reflete sobre o Mal e o pecado, pode ser simplesmente lançado ao lixo é um erro metodológico-científico! Devemos dialogar com esse tesouro negro que em muito nos supera (as ciências refletem mal sobre essas questões), pois nele temos idéias como a de Agostinho, segundo a qual não há “supremo Mal” ou “fundamento do Mal”, mas simplesmente um gigantesco parasitismo ontológico da força criativa humana e divina (o Bem). Isso implica que o Mal necessariamente não leva a lugar nenhum, pois não toca nenhum “fundo”, sendo um impossível Nada; portanto é, necessariamente, um nômade nas variações da miséria.


PONDÉ: Como você vê a atividade de historiador da filosofia medieval hoje?

ALAIN DE LIBERA: Lamento que, apesar de termos muita pesquisa profunda sobre vários autores, não haja hoje muita gente preocupada em refletir sobre o papel do filósofo historiador, isto é, não se reflete sobre essa nossa função de dialogar com o passado. Penso que fazer história, principalmente em filosofia, é ser agente de pertubação das concepções de mundo nas quais estamos inseridos.



Uma resposta to “Alain de Libera”

  1. Não conhecia Alain de Libera. Adorei. Pena termos poucos livros publicado em português (e os dois que encontrei, a preços muito altos). Ainda vou morar numa livraria :/

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