Um pouco sobre PONDÉ

Mini Currículo

Luiz Felipe Pondé graduou-se inicialmente em Medicina pela Universidade Federal da Bahia e, depois, em Filosofia Pura pela USP – Universidade de São Paulo. É Doutor em Filosofia Moderna pela USP/Universidade de Paris e Pós-Doutor pela Universidade de Tel Aviv, Israel. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha).

Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP, professor titular da Faculdade de Comunicação da FAAP. Possui vínculos em pós-graduação com a Escola Paulista de Medicina e a UNIFESP, além de ministrar diversos cursos na Casa do Saber. É também colunista, desde 2008, de um dos conhecidos jornais paulistas com distribuição nacional.

Autor de:

O Homem Insuficiente (EDUSP, 2001),

Crítica e Profecia – Filosofia da Religião em Dostoievski (Editora 34, 2003),

Conhecimento na Desgraça – Ensaio de Epistemologia Pascaliana (EDUSP, 2004),

Do Pensamento no Deserto – Ensaios de Filosofia da Religião (EDUSP, 2009) e

Contra um Mundo Melhor – Ensaios do Afeto (LEYA Brasil, 2010).

[Saiba mais sobre os livros]


Em suas próprias palavras

Sou alguém formado na matéria médica: corpo, doença e morte. Produto de uma família de médicos, o materialismo científico fez parte do meu cotidiano enquanto descobria o mundo entre o café da manhã, os brinquedos, a TV e a faculdade de medicina. Sou alguém que logo despertou para as misérias psicológicas da psicanálise: o homem evidentemente não é o dono de si mesmo, é um barco que vaga à mercê de um oceano violento de instintos e pulsões que o consome para além de sua consciiencia. Além disso, o meio ambiente o devora com sua elegância mecânica e indiferente. Na faculdade de filosofia, onde busquei refazer minha vida profissional, fui especialmente marcado pelos gregos: ceticismo e tragédia. A ruína do conhecimento e a ruína da liberdade diante de um destino esmagador – as moiras – estão no fundo de tudo que eu penso. Não se pode fugir daquilo que se é: cada vez mais percebo que sou um trágico. Vejo a dura condição humana relatada desde os hospitais, passando pelos cemitérios, pelas lágrimas, chegando à sofisticação de um Sófocles, um Lucrécio, um Schopenhauer, um Nietzsche ou um Cioran. Como dizia Freud, a felicidade não parece fazer parte dos planos da Criação. Nunca temi o niilismo porque o conheço bem, pois ele é meu íntimo. Este é quem lhe escreve, caro leitor, um cético e um trágico, não se engane. E continuo sendo quem sou: um habitante de um mundo sem sentido. Nunca conheci a angústia metafísica pela falta de fé. A rigor, a fé continua sendo uma experiência estranha à minha personalidade. Para mim, a devastação do mundo sempre foi um dado da ordem das coisas. Há cerca de 15 anos me bato contra uma experiência que se repete e com a qual não sei o que fazer. Desloquei todo o meu arsenal filosófico para ela e vivo com ela desde então, buscando contorná-la com meus conceitos (e de meus ancestrais), tentando harmonizá-la com o resto da minha personalidade e da minha história.

(“No Sinai”, Contra um Mundo Melhor, Ed. LeYa, 2010, p. 213-214)


O poeta russo Joseph Brodsky, em seu monumental “Discurso Inaugural”, afirma que sobre o bem devemos falar sempre entre poucas pessoas. Sobretudo porque, quando falamos para muitas pessoas, a chance de que muitas delas sejam más é enorme, justamente porque são muitas. Mesmo que jurem sinceridade, ainda assim devemos desconfiar, pois os sentimentos falsos são comuns nas pessoas e, quando multiplicamos seu número, multiplica-se exponencialmente a possibilidade de falsos sentimentos. Mas não vou falar aqui do bem nem do mal. Talvez haja, afinal, alguma relação entre o pequeno objeto deste ensaio e o bem e o mal, do contrário não teria assim pensado. Mas deixemos isso para lá. Corramos o risco. O que nesta analogia conscientemente me importa é o número de pessoas: espero que apenas umas três ou quatro pessoas leiam este ensaio. E por que esse meu desejo de ser lido por poucos? Porque pretendo falar de algo que não se deve falar para multidões. A delicadeza, a sofisticação da alma, o amor ao detalhe e a vontade de entender não são atributos das multidões, e aqui reside grande parte de toda a miséria moderna, ser um mundo de grandes números, dedicado a muitos idiotas.

(“No Sinai”, Contra um Mundo Melhor, Ed. LeYa, 2010, p. 214-215)


Nunca deixei de ser filosoficamente ateu. A passagem da condição de ateu para a de não ateu (não sou propriamente religioso) se deu assim como quem sai de casa num dia ensolarado e é apanhado por uma tempestade. Mas, apesar de ser uma tempestade tão concreta quanto a chuva, só aprendi a nomear sua substância quando fui à tradição; tratava-se daquilo que muitos místicos chamamaram de misericórdia. Às vezes, preciso fugir para um abrigo para respirar. Quando olho à minha volta, vejo esta estranha misericórdia sem causa escorrer pelo céu. E, por alguma razão que desconheço, o cético e trágico que sou é obrigado a contemplar isso contra todas as faculdades intelectuais e volitivas que me constituem. Sou apenas alguém que, sem até hoje saber a razão, passou a ser constantemente visitado — no sentido mais comum que a expressão tem, por exemplo, na tradição do cristianismo ortodoxo — pela sensação de que o mundo é sustentado pelas mãos de uma beleza que é também uma presença que fala. Passei a estudar textos místicos para entender o que acontecia comigo. No fundo, para não me sentir só. Nesse sentido é que, dentro da sorte que sempre tem marcado minha história de vida, encontro pessoas, assim como eu, formadas na erudição e na academia, e assim como eu, descontentes com seus “grandes números” e sua quase-banalidade. Saúdo assim a voz de todas as pessoas de boa vontade à minha volta, como quem ouve a beleza da misericórdia, escorrendo por suas palavras e letras, que inunda o mundo. Vejo, com estes meus olhos feitos de pó, esta beleza contemplar meu vazio. Nesse momento, sinto-me no Sinai, o gosto do deserto na boca e nos elementos naturais à minha volta, que anunciam o fim de tudo o que existe, e a força da graça que transforma o nada em matéria e espírito .

(“No Sinai”, Contra um Mundo Melhor, Ed. LeYa, 2010, p. 215)



 

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21 Respostas to “Um pouco sobre PONDÉ”

  1. Pondé,
    Parabéns pelo seu blog. Está lindo e muito rico. Obrigada por nos instigar sempre com seu pensamento.
    Bjs

    • Cara Maruzânia,

      Este blog não pertence ao Luiz Felipe Pondé. Nem sequer sabemos se ele sabe da existência do blog. Como vc pode verificar na página “Sobre o Blog” (primeira opção do menu que fica ao lado direito de nossa página), criamos o blog para tentar centralizar e organizar os textos de Pondé que todos nós reunimos ao longo dos anos e que estão distribuidos pela internet em vários sites. Mas ainda não tivemos tempo de colocar tudo o que temos. Apenas uns 50% já estão online. E aceitamos contribuições, caso nossos leitores possuam algo do Pondé para compartilhar…

      De qq forma, ficamos muito contentes que tenha apreciado nosso trabalho. Fazemos isso nas horas vagas, pois todos nós trabalhamos muito e temos pouco tempo para deixar o blog do jeito que gostariamos, infelizmente. Mas está sendo montado aos poucos, apesar do pouco tempo.

      Esperamo que possa voltar a nos visitar para ler os ótimos textos de Pondé, que todos nós admiramos muito.

      Grande abraço,

  2. Adorei o blog.
    Muito bem organizado, acho que nem eu sei tantas coisas do meu pai e tenho tantas fotos. Parabéns,
    Dafna Pondé

    • Muito obrigado por seu comentário, Dafna! É uma honra ter nos presenteado com a sua visita! Ficamos muito felizes que tenha gostado, e que nosso caríssimo Pondé tenha nos respondido ontem, aprovando nossa iniciativa.

      Realmente adoramos!

      Se quiser nos dar qualquer dica sobre o blog, por favor, fique à vontade.

      Gde abraço, Eq. Pathfinder

  3. Que legal que a filha do Pondé encontrou o blog e deu um feedback!
    Sou um visitante frequente do blog, inclusive tenho seu link na barra de favoritos do Firefox.
    Apenas uma questão: vocês informam aqui no blog quando o Pondé dará algum curso aberto ao público?
    Parabéns! Abraço!

    • Olá, Gabriel.

      Foi mto legal a filha do Pondé nos dar um feedback. Mais do que isso, ele mesmo nos deu um feedback, só que por email, parabenizando-nos pelo blog “dele” que não é dele…rsrs… Disse que gostou bastante de como o blog foi montado. Ficamos muito felizes com a resposta do Pondé e com o comentário da filha dele!

      Qto aos cursos, palestras e debates do Pondé, SIM, informamos de tudo que ficamos sabendo, sempre que possível. Em breve acreditamos que ele fará o lançamento de seu novo livro, com palestra e noite de autógrafos, aberta ao público, acreditamos. Assim que soubermos com certeza sobre isso, caso seja confirmado o lançamento, informaremos também.

      Abs e obrigado por acompanhar nosso blog.

      Eq. Pathfinder

  4. Apenas uma observação: no blog, o nome do Pondé está escrito com “s”, mas na verdade é com “z” (Luiz, e não Luis).
    Abraços!

  5. Gostei! Poderia me perder em elogios ao blog. A pouco fiquei conhecendo este espaço virtual. Parabéns! Sempre fico navegando na internet na busca de novos textos de Luiz Felipe Pondé. Comprei o último livro dele, e li em três dias, na minha viagem de trem indo ao trabalho, ou como ele mesmo define o trabalho “pequeno heroísmo cotidiano”. Passei a navegar neste Blog com frequência…

  6. Gostei muito dose u blog, com certeza o material mais completo do Pondé na net.
    E que legal que a filha dele visitou o blog e comentou.Adoro o Pondé e sempre leio os artigos dele na Folha.

  7. Boa noite amigos! Estou maravilhada com o blog e gostaria muito de estudar com Pondé, o conceito de insuficiência em Pascal. Grata pelo lindo trabalho de vocês, Ana Mariza.

    • Cara Ana,

      Por que você não entra em contato com ele por email? Pensamos que talvez ele aprecie seu interesse. Bem, é a ideia que fazemos dele, mas não o conhecemos, na verdade. Uma amiga nossa conhece um do orientandos de Pondé que escreve sobre Pascal e nos disse que tem um trabalho ótimo, parece que está terminando um doutorado. Segundo ela, trabalho de altíssimo nível.

      Escreva para ele. Acho que vale a pena vc tentar! E obrigado por suas palavras. Gostamos muito de nosso trabalho aqui.

      Abraço, Equipe Pathfinder

  8. Ouço sempre os comentários de Luiz Felipe na Radio Metropolis aqui em Salvador. Ele é o meu malvado preferido.

    Adorei o blog.

  9. Blog muito bom. Aprecio e me identifico com a filosofia do afeto e cotidiano de LFPondé.

    Abraço.

    RB

  10. Olá Luiz Felipe, a O Governo do Estado do Tocantins, por meio da Secretaria da Educação, promoverá no período de 06 a 15 de julho de 2012, em Palmas, a Feira Literária Internacional do Tocantins – FLIT. O evento acontecerá na Praça dos Girassóis, que possui 570 mil metros quadrados, situada no eixo central da Capital, Palmas. A praça, que abriga as sedes dos três poderes estaduais, possui amplos espaços de lazer permeados por jardins e monumentos históricos.
    A Flit 2012 é a segunda edição da Feira Literária do Tocantins de cunho internacional. O evento terá como tema: “Sustentabilidade” e uma programação ampla e inclusiva. Personalidades que serão homenageados na FLIT Luiz Carlos Prestas, Jorge Amado, Cândido Portinari e dentre outras.
    Na Flit 2012 ocorrerão eventos simultâneos distribuídos entre os diversos espaços da praça. A perspectiva de público visitante é de que 500 mil pessoas participem dos variados espetáculos, palestras, shows, oficinas, debates, lançamentos de livros, exibições de filmes, apresentações artísticas, exposições, dentre outros. A feira também disponibilizará estandes para a comercialização de livros distribuídos em todos os espaços da praça.
    O Governo do Tocantins disponibilizará recursos aos professores da Rede Estadual de Ensino para aquisição de livros voltados a sua formação e acervo pessoal.
    Neste sentido, temos a honra de convidar a Vossa Senhoria para proferir uma palestra na Feira Literária Internacional do Tocantins, agendaremos a data conforme a programação da feira e a sua disponibilidade de agenda.
    Informações adicionais poderão ser obtidas com a servidora Heloisa Rehder ou Adriana Valle, pelos telefones (63) 3218-6178 ou 3218-5812 ou pelo e-mail nucleocultural.seduc@gmail.com.

  11. Leio sempre o que escreve o Pondé, os artigos de combate e os livros. Acho que, num meio intelectual onde pensar é aderir a uma corrente de opinião como quem adere a um partido, apenas isso, Pondé nos lembra que pensar é, sobretudo, procurar se aproximar da existência, no que ela tem de mais agudo e com a singularidade de cada um de nós. Para mim, é sempre um desafio a ter em conta: acolher a dor das coisas, ter o mal diante dos olhos e, ainda assim, como ele fala, prestar atenção numa presença que nos fala. Sempre achei que esta é uma das interrogações que o cristianismo põe a todos nós: um Deus, uma Presença, que nunca se mostra, que espera nosso esforço como se dependesse dele, e que se encarna, torna-se carne. Atolados por uma leitura quase que inteiramente moralizante (no sentido meramente proibitivo e coercitivo da palavra), nos esquecemos de que o cristianismo é, antes de mais nada, uma aventura humana, antropologia que deseja teologia.

  12. Estão precisando atualizar este blog e a página, rsrsrsrsrs

  13. Eu sou aluna de 3 ano do ensino médio, estou fazendo um trabalho de filosofia e fiquei responsável por este filósofo, e necessito saber quais são as suas teorias.

    P.S: Adorei o site me ajudou muito.

    • Verifique a lista de livros dele (precisamos atualizar o site, desculpe) e os artigos para ter uma ideia.

  14. Olá, autores do blog do Luís Felipe Pondé. O blog até é um ”pouquinho” interessante. Conquanto, vocês que conhecem tanto do mundo filosófico atual, poderiam ser mais críticos e também poderiam aprofundar-se mais nos assuntos expostos no blog. Venho através deste manifesto, expressar o meu descontentamento com a inexistência de conteúdos relativos às teorias do ilustríssimo senhor pensante contemporâneo Luís Felipe Pondé. Portanto, gostaria que saíssem um pouco de seus magnificantes repousos e começassem a estudar de maneira mais aprofundada sobre o filósofo em questão.
    Atenciosamente, um ser mais pensante e inteligente que vocês. = )

    • Senhor “mais pensante e inteligente” que nós,

      Este blog existe para divulgar as ideias do filósofo Luiz Felipe Pondé, NÃO para expressar nossas opiniões pessoais sobre o pensamento dele. Também NÃO criamos o blog para divulgar críticas ou pesquisas e estudos sobre suas teorias. Se deseja “conteúdo sobre” as ideias de Pondé, por favor procure por trabalhos acadêmicos sobre as obras e teorias do filósofo OU sites/blogs que tenham sido criados para discutir sobre o que ele pensa ou escreve. Esse não é objetivo deste blog, NUNCA FOI, como está bem claro na página dedicada a descrever quem somos e porque criamos o blog (https://luizfelipeponde.wordpress.com/sobre-este-blog/).

      O blog funciona ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE como um banco de textos escritos pelo próprio Luiz Felipe Pondé (e divulgados em uma série de outras fontes disponíveis na web), além de vídeos com entrevistas realizadas com o filósofo ou programas dos quais participou. Se deseja “aprofundar mais os assuntos expostos no blog”, a única coisa que podemos sugerir é que entre em contato com o próprio Luiz Felipe Pondé e faça o convite a ele para discutir suas ideias e teorias, já que todos os textos aqui expostos são de sua autoria.

      Atenciosamente, Equipe Pathfinder

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