ESTADÃO

SOBRE MACACOS, RATOS E HOMENS

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

LUIZ FELIPE PONDÉ (Fonte original: ESTADÃO online20 janeiro 2008)


Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua “técnica da verdade” várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo.

Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da “falsa santidade” do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de “políticas do bem”. O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os “santos da objetividade”. Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?

Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a “rainha de todos os saberes”, inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou?

Por que o “papa obscurantista” une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a “ciência real” da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.

A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra.


EM AÇÃO, A MÁQUINA MODERNA DA LÓGICA IMPLACÁVEL

LUIZ FELIPE PONDÉ (Fonte original: ESTADÃO online10 março 2008)


Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. (Chesterton)


Deixe-me dizer, de partida, que me parece inevitável que leis a favor da manipulação de embriões humanos, ou mesmo do aborto (não concordo com a idéia de que os temas sejam tão distantes, e os agentes sociais dessa trama revelam muito essa proximidade temática), sejam aprovadas em algum tempo. A máquina moderna torna isso uma lógica implacável: caminhamos sobre a superfície lisa e metálica da autoconfiança e a noção de “direitos de biossegurança” seguirá à mera constitucionalidade da Lei de Biossegurança. Como deve ser bom viver num mundo onde fazer a diferença entre vida como conceito biológico e pessoa como objeto jurídico, no sentido de excluir o debate sobre embriões do campo do “humano”, é suficiente pra me deixar autoconfiante e com o sono tranqüilo.

Controvérsias como essa das células embrionárias como matéria-prima da pesquisa farmacêutica iluminam os limites da sociedade e do Estado moderno de Direito.

Sem muito mais do que palavras e a positividade pura da lei, que há muito sabemos ser mera convenção, resta pouco além do que um mundo que se arrasta entre a espada e a letra retórica. O Estado se vê continuamente obrigado a apagar incêndios causados por uma ciência irreverente. À medida que avança a artificialização do espaço natural, cresce a pressão sobre a frágil racionalidade jurídica, e assim funda-se o campo dos oráculos que nos restam. O cético (ou o religioso inquieto) vê a fé simples do jurista em si mesmo assim como quem contempla a crença do povo simples no dom da premonição das pitonisas.

Talvez um dos argumentos máximos que poderia tirar o sono daqueles que advogam pelas “luzes da razão científica” em favor da manipulação de embriões (como se a ciência soubesse por onde caminha), seria levantar a hipótese que os ovos humanos um dia estarão sob ameaça de extinção assim como os ovos dos pandas. O fato é que existe humanos o suficiente e, portanto, somos baratos. A capacidade técnica de gerar embriões para a fé na indústria da saúde é enorme. Suspeito ser esse um dos fatores centrais de fundo desse drama: apesar de falarmos tanto da dignidade humana, no fundo pensamos que somos mais banais do que os répteis. As almas metafísicas buscam desesperadamente argumentos válidos contra a fúria da infelicidade biológica. Num mundo onde há muito tempo a lei escorrega cada vez mais na direção do conceito de humano como pedaço de matéria com direito à felicidade auto-sustentável, as palavras recuam, timidamente, para o estreito espaço da instrumentalidade esclarecida. Aí reside a segurança metálica dos que operam a lógica do esvaziamento científico dos embriões da sua condição de humanidade. Uma vez que esta condição se tornar cada vez mais objeto de direito da racionalidade jurídica, não haverá saída para a lenta e gradual redução conceitual do humano a recurso mineral, livremente disposto à mão da manipulação pelo pequeno pedaço de matéria infeliz que somos nós. O fato é que a ancestral insuficiência humana tornou-se petição de princípio diante do vazio que é o mundo habitado unicamente pelo que esta ao alcance das mãos.

Chega a ser monótono o modo como hábito e lei entram em conflito contínuo numa sociedade que se moderniza ainda que sem as utopias que um dia alimentaram os profetas da felicidade científica. Sabemos que as promessas da engenharia político-social fracassaram, restou-nos a realidade da utopia biológica. O produto emancipação encontra seu ninho último no laboratório da biossegurança. A tentativa das almas metafísicas de fazer frente ao progresso do direito desse pequeno pedaço de matéria infeliz esbarra na crescente perda de significado de palavras como “vida”, “embrião”, “humanidade potencial”. No momento em que a desumanização legal se instaurar de modo comum, restará pouco a essa minoria em extinção. E aqui, não me parece que todos os religiosos sejam almas metafísicas, alguns cultuam seus deuses apenas como heróis que existem para sustentar os direitos da matéria desassossegada, que atravessa a banalidade das horas assim como quem busca, ao final do dia, uma caverna segura. Resta o mal estar difuso, traço marcante do que o filósofo inglês Michael Oakeshott chama de desconforto da moral do hábito em oposição a moral racionalista dos conceitos e princípios, dada à busca da segurança da Idéia, aliada obcecada e necessária da industrialização da vida. Segundo este cético e conservador inglês, esta moda intelectual do racionalismo político de gabinete tende inexoravelmente ao “fundamentalismo da idéia”, característica típica dos modos da insegurança humana. Este atormentado pequeno pedaço de matéria infeliz enfrenta cotidianamente o horror diante da contingência silenciosa que é a vida. A natureza deste fragmento consciente de matéria é necessariamente instável, daí ele necessitar do óbvio assim como os peixes asfixiam fora da água.

Diante da imediaticidade da lei, pedir pra pensar pode ser o resto de humanidade que nos é ainda possível. Em breve, este ato cairá no esquecimento porque o medo, nossa substancia essencial, necessita das falhas da memória pra sobreviver. Em meio ao infinito das horas que estão por vir, ele soa como o canto final de um cisne resistindo ao que parece inevitável. Diante do monótono zumbido da modernidade, escolho ouvir o lamento do mito que habita, solitário, as ruínas de Babel.


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