2008

“O Filósofo, a Torre e o Papa” 

 

Para filósofo, ruiu a utopia da solução científica da existência: “O ser humano é agonia, não é alguma coisa que tenha solução”.

Reportagem de RAFAEL RIVA FINATTI (para o Instituto Ciência e Fé – Ano 9 – Ed. 103 – Abril 2008)

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A filosofia é uma área de estudos que envolve análise, investigação, reflexão e formação de visões de mundo, a partir da inquietação humana por compreender e questionar os valores e as interpretações tradicionalmente aceitas sobre a sua própria realidade. Quando Luiz Felipe Pondé apareceu na sede do Centro Cultural Conforti, na manhã do dia 12 de abril, fumando seu cachimbo, usando um óculos moderno e dizendo que jantara na noite anterior num restaurante tailandês, foi difícil acreditar que carregasse todas as inquietações humanas de um filósofo.

Num clima descontraído, começou sua palestra (um seminário promovido pelo ICHTHYS – Instituto de Psicologia e Religião) contando a história do mito da Torre de Babel, do livro do pensador inglês Michael Oakeshott, “Sobre a História e Outros Ensaios” (Editora Topbooks).

O mito de Babel está ligado tanto às línguas quanto à construção do paraíso. Oakeshott inventa uma nova estória, a de um povo (da cidade de Babel) que, sem grandes virtudes, mas com enormes vícios, trabalhava bastante e achava que merecia mais do que tinha.

Acreditando em sua autonomia e capacidade de chegar à perfeição, os babelianos se viam no direito de chegar até Deus e cobrar dele o paraíso. Para isso, decidiram unir forças e construir uma torre. Ao longo dessa construção, entretanto, os pensamentos mudaram e diversas questões passaram a inquietá-los, como: “O que eu quero do paraíso e da eternidade? O que vamos querer que nos deixe felizes sempre?”. Apesar dos dramas psicológicos, a construção da Torre de Babel mobilizava os babelianos, que passaram a ficar desesperados também com o fato de o paraíso ser muito longe. Porque faltava tempo e matéria-prima, todas as casas da cidade foram demolidas, e também o palácio do governo, fazendo de Babel uma imensa torre no meio do deserto, com as pessoas vivendo em tendas.

As dificuldades fizeram surgir os céticos, logo censurados e aos poucos expulsos da cidade pelo governo; e uma desconfiança generalizada entre as pessoas, com todos achando que o outro queria subir mais rápido, o que as tornou individualistas. O tempo passa a ponto de surgir uma geração só de babelianos nascido depois do início da construção da torre e que, por isso, enxergam apenas o futuro. Aos poucos, as pessoas vão ficando impacientes. Isoladas, começam a falar sozinhas, em línguas, inclusive o personagem principal de Oakeshott, o idealizador da torre, que está lá no alto falando sozinho e nunca desce. O boato de que ele estaria falando com Deus se espalha e os babelianos, achando que seriam traídos por um acordo à sua revelia, decidem todos subir na torre.

A população inteira de Babel sobe, mas a torre não agüenta e rui, matando todos, tal como diziam os céticos: “Sonhando que um dia iriam viver nos jardins do paraíso, tudo o que vão conseguir é ampliar a fronteira do inferno”.

BABEL E A PÓS-MODERNIDADE

A mensagem final de Oakeshott é clara: devemos deixar as coisas como estão, não há como se construir um mundo melhor. O problema escancarado pelo mito de Babel, aqui um resumo do resumo contado por Pondé em sua palestra, é a idéia de que nós, seres humanos, detemos os instrumentos racionais para organizar o mundo inteiro como se fosse uma empresa. “Quando se estreita a compreensão do mundo, constrói-se a ilusão de uma utopia perfeita”, resume Pondé, que enuncia o tema central de seu seminário: “o ser humano sempre foi infeliz, a vida é finita; o erro é achar que com uma organização geral (método) é possível fazer com que tudo seja melhor”.

A análise de Pondé passa a referir-se a um outro texto de Oakeshott, menos literário, em que o filósofo inglês reflete sobre o racionalismo como a forma que os modernos encontraram para começar a pensar que tudo o que existe é objeto humano e que nada foi gerado por divindade alguma.

Para o racionalismo, tudo é design, isto é, fruto da engenharia humana e passível de ser calculado. “A idéia é que a gente possa montar a nossa vida tal como queremos. Daí a existência de tantos engenheiros em nossa sociedade”, explica Pondé. O olhar é para o futuro, não para o passado, e não se vive plenamente o presente. A política administrativa de sucesso, o conhecimento científico e a ética racional, apontados por pensadores como Hegel, servem ao futuro. Tudo remete ao direito que podemos ter de buscar a felicidade, justamente o drama de Babel.

Na verdade, os babelianos sofriam e o esforço de lidar com o sofrimento não é racional, mas sim histórico: “a idéia de que o ser humano tem direito à felicidade é tão infantil que acaba virando auto-ajuda”, exemplifica Pondé. (Há vários best-sellers por aí que não deixam o filósofo mentir). De outro lado, o Papa Bento XVI diz que “a esperança é uma virtude essencial”; o problema, segundo Pondé, é que na modernidade, no design, a esperança não tem fundamentação, é empírica. A lógica de Hegel é a de que o mal e o sofrimento são pura e simplesmente falta de conhecimento: educando as pessoas corretamente, resolve-se o problema. “Por isso, os psicólogos estão nas escolas”, diz Pondé. “Faz-se pressão sobre a educação, quando a vida pessoal está naufragada. Na Inglaterra, segundo essa lógica racionalista hegeliana, os professores devem educar as crianças no jardim de infância a lidar com os sentimentos de uma forma produtiva. Mas quem sabe fazer isso?”.

De volta a Babel, o fato é que o paraíso não existe e isso traz sofrimento às pessoas, pois é um problema que não se resolve com engenharia.

Oakeshott mostra que grande parte das experiências humanas não são resumos racionais e que a idéia de uma ética essencialmente racional é uma contravenção lógica. “Tente passar uma semana sendo racional.

Você não vai conseguir!”, desafia Pondé. “Não se pode saber o tempo todo o que está acontecendo. O hábito do afeto, dos sentimentos, é muito mais parecido com a relação mãe e filho do que com uma prova em que a criança tem que responder sobre valores. O afeto é espontâneo”.

Aristóteles, lá na Grécia Antiga, já dizia que, apesar de a política ser o espaço onde vivem os homens livres, a vida moral não brota dessa organização. Ainda assim, a organização política tem impactos, que na modernidade são muito maiores. Enquanto a experiência ética nasce da soma de uma gama variada de relações da vida (família, amigos, escola, trabalho), a racionalidade derrama lógicas universais sobre a sociedade, a fim de introduzir comportamentos. “É o caso da idéia de colocar camisinha no banheiro das escolas, achando que todo jovem quer transar o tempo todo e que por isso o acesso à proteção deve ser facilitado”, critica Pondé.

Ou seja, não que as políticas públicas não sejam válidas, mas é complicado quando elas alteram hábitos. “Sem hábitos, a sociedade fica muito mais dependente das políticas públicas, do racional”, lamenta Pondé.

Mais uma vez, o contraponto a essa lógica pós-moderna é a defesa da experiência humana, por parte de Bento XVI e da Igreja Católica. “Deus está no detalhe”, diria o sumo pontífice, e muitas vezes a humanidade, de tão afoita pelo aperfeiçoamento, pode criar outros problemas, tal como ocorreu com Babel. “Existe uma batata quente com a qual a gente se relaciona, e mal sabemos o que é. Negamos a tradição (tal como os jovens babelianos) porque ela é velha, mas isso não significa que ela seja ultrapassada”, finaliza Luiz Felipe Pondé.

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Após sua explanação, Pondé abriu espaço para perguntas dos participantes presentes no seminário. A reportagem do Jornal Universidade não só fez perguntas como entrevistou, em particular, o filósofo. Eis um resumo das principais respostas de Luiz Felipe Pondé:

JORNAL UNIVERSIDADE – Diante de tudo o que o senhor explicitou, a liberdade existe ou é uma utopia?

LUIZ FELIPE PONDÉ – Não sei o que é liberdade, nunca cruzei com ela na rua (risos). A liberdade em termos modernos é uma grande utopia. Enquanto houver poder, ele será sempre opressor. Basta ver a democracia: é tão opressora quanto qualquer outro tipo de governo. (…) Pra mim, se existe algum lugar onde eu possa estar… pessoas que eu não gosto não entram, a mídia e o governo não entram… isso é liberdade.

JORNAL UNIVERSIDADE – Somos todos babelianos?

PONDÉ – Todo mito descreve fatos históricos, realidades profundas. Sim, somos todos babelianos.

JORNAL UNIVERSIDADE – O mito profetiza o que acontecerá com a humanidade ao enveredar por pesquisas como as que têm sido feitas com células tronco, por exemplo?

PONDÉ – O mito não está falando só do futuro, mas de uma situação que já está acontecendo. As células-tronco significam um primeiro passo na direção do homem como agricultor da matéria humana. (…) Acho que começa com células-tronco e acaba com políticas de reprodução sub-humanas sustentáveis, cada vez mais regimes legais irão prever o que pode e o que não pode nascer. E isso é uma visão tipicamente babeliana. Falta a nós perceber os problemas que a gente cria com a modernização.

JORNAL UNIVERSIDADE – Deveríamos pensar melhor em frear um pouco a evolução tecnológica?

PONDÉ – O ser humano sofre e por isso quer construir o paraíso. E quando ele começa a construir o paraíso, ele sofre mais ainda. Portanto, o mito para nós é interessante pois sai do debate de quem é a favor ou contra alguma coisa.

JORNAL UNIVERSIDADE – O estereótipo do filósofo é de uma pessoa isenta de crenças, neutra. Como você lida com isso?

PONDÉ – Essa idéia de o filósofo ser isento é uma mentira. Do ponto de vista do ethos filosófico, o ceticismo é o exercício que mostra isso, que sempre existe crença. Idealmente, o cético é aquele que percebe que não existe nenhuma teoria sustentável e prefere seguir o hábito. Os filósofos neutros acreditam na história, no mundo, na democracia. Eu sou muito cético; só acredito em Deus.

JORNAL UNIVERSIDADE – Qual o papel da educação hoje?

PONDÉ – Acho que a educação é uma questão essencial da formação. A escola não deve ter a função de ensinar o bem para as pessoas. A função da escola é ensinar matemática, português, física; ensinar os meninos a escrever direito, ensinar literatura. Acho que é ensinar um monte de coisas em história e deve ensinar os grandes clássicos, que não viraram clássicos porque eram homens heterossexuais e brancos, mas porque são bons pra cacete. Eu acho que é função da escola passar para os mais jovens o que a gente produziu de melhor e não obrigar a escola a discutir políticas étnico-raciais em sala de aula.

JORNAL UNIVERSIDADE – Como assimilar novos pensadores?

PONDÉ – Temos a tendência de assimilar só a linhagem marxista e a linhagem chamada radical, dividir o conhecimento entre progresso e conservador. Se formos fazer essa divisão, temos que começar a ler autores que eram considerados conservadores. Os próprios intelectuais e formadores produzem o preconceito com relação a isso.

JORNAL UNIVERSIDADE – Mas o senhor não é anti-marxista, certo?

PONDÉ – Não, eu estudei marxismo. Só acho que ele não explica a experiência humana como um todo. Isso é uma bobagem, não tem nenhuma teoria que explique isso.

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Uma resposta to “2008”

  1. Essa opinião do Pondé, sobre educação, é fantástica. Eu conheço empiricamente a educação da “Coisa Pública”, pois lá, outrora, cursei todo o meu ensino fundamental e médio. No ano passado, quando terminei o ensino médio, cheguei a conclusão de que tudo, ou quase tudo, o que os meu professores haviam me ensinado, até então, não passava da imposição de moldes morais, e não uma introdução a história, a arte, as ciências em geral.
    Cheguei a ter professores que aplicavam sanções a alunos que não rezassem o “Padre Nosso” no ínicio das aulas, professores que repudiavam explicitamente o homossexualismo, professores que preconizavam determinada fé, professores que incutiam determinados pensamentos políticos na cabeça dos alunos, e por aí foram vários outros absurdos.
    Pra concluir, eu só acho que a educação está sendo confundida como o ensinamneto de valores.

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