“Elas gostam de apanhar” (27.08.2012)



“Elas gostam de apanhar.” Esta é uma das máximas mais famosas de Nelson Rodrigues, nascido no dia 23 de agosto de 1912 no Recife. Esta afirmação ainda choca muita gente. “Reacionário!”, “machista!”, gritam os inteligentinhos que nada entendem da “vida como ela é”.

É comum se dizer que Nelson está assimilado ao cenário cultural, mas não é verdade. A prova é que livros best-sellers como “Fifty Shades of Grey” (Cinquenta Tons de Cinza), de E. L. James, ainda causam ira por parte dos setores “progressistas” (a esquerda festiva da qual tanto falava Nelson), apesar de as mulheres “normais”, que segundo Nelson são as que gostam de apanhar, estarem devorando o livro com imenso prazer.

No livro de James, Anastasia Steele, universitária, se apaixona pelo poderoso Christian Grey, de quem se torna amante, perdida nas delícias de uma relação “sadomasô light” a qual ela se deixa submeter. E gozará maravilhosamente na submissão. No primeiro momento em que ela o encontra, tropeça e cai, anunciando o domínio que Christian terá sobre ela. Na linguagem feminina comum, “Ele tem pegada!”. E o afeto feminino responde à “pegada”.

Não se trata de dizer que Nelson está estimulando surras, mas sim que o desejo feminino passa pelo gozo da submissão ao macho desejado, dentro do jogo da sedução e do sexo. O “elas gostam de apanhar” no Nelson também fala do enlouquecer o homem, como no caso de adultério, e esperar dele uma bofetada acompanhada de “sua vagabunda”, revelando o quanto ele ama esta mulher que o traiu. A psicologia rodriguiana parte da sua máxima “a vida é sempre amor e morte”.

“A prostituta é vocação e não a profissão mais antiga.” Há uma relação íntima entre sexualidade feminina e a figura da prostituta como eterna promiscuidade temida. A mulher que nunca encenou “sua” prostituta no sexo, nunca fez sexo.

“Dinheiro compra até amor verdadeiro.” Imaginemos duas situações hipotéticas.

Hipótese 1: Alguém convida você para um longo fim de semana na costa amalfitana na Itália. Executiva, hotel charmoso, longas caminhadas por ruas quietas e antigas, sem pressa, vinho (não “bom vinho” porque isso é papo de pobre querendo parecer rico, do tipo que os jovens chamam de “wanna be”, gente que queria ser chique, mas não é).

Hipótese 2: Alguém te convida para um fim de semana longo na Praia Grande, você pega oito horas de Imigrantes, trânsito infernal, o carro ferve, você fica na estrada esperando o socorro da Ecovias. Chega lá, apartamento apertado, cheiro de churrasco na laje por toda parte. Crianças dos outros gritando em seu ouvido.

Onde você acha que o amor verdadeiro nascerá? Se responder “hipótese 2”, é mentiroso ou não sabe nada acerca dos seres humanos, vive num aquário vendo televisão e se olhando no espelho.

Antes de alguém dizer obviedades entediantes como “preconceito” (agora quando alguém fala para mim “preconceito”, não levo mais essa pessoa a sério) ou “depende de qual contexto a pessoa nasce”, esclareço: é fácil migrar da Praia Grande para a costa amalfitana, mas não o contrário. E quanto ao “preconceito”: não se trata de preconceito, se trata do tipo de verdade que todo mundo sabe mas é duro reconhecer. Sim, o amor verdadeiro está à venda e enquanto você não entender isso você permanece um idiota moral.

O reconhecimento deste fato torna você adulto, não torna você “melhor”. E ser adulto é saber que o mundo não é um lugar “bom”. Começando por você e eu.

Sábato Magaldi chamava o Nelson de “jansenista brasileiro”. Jansenistas eram escritores franceses do século 17 que partilhavam uma visão de natureza humana na qual somos vítimas de desejos incontroláveis (ou pecado, na linguagem da época) e que por isso não conseguimos escapar dessa armadilha que é interior e não “social”. A raiz deste pensamento é a concepção de ser humano de Santo Agostinho que eles herdaram. Pascal, Racine e La Fontaine foram jansenistas.

Eu acrescentaria que Nelson era um moralista. Moralista em filosofia é um especialista na alma humana. Proponho que ensinem mais Nelson na escola e menos Foucault.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 27.08.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 28/08/2012.

11 Respostas to ““Elas gostam de apanhar” (27.08.2012)”

  1. kkkk eu morro de rir com esse Pondé, concordando ou não, achando machista ou não, prefiro a pegada da PG do que um mauricinho de sapato mocassim na amalfitana kkk

  2. ELES GOSTAM DE BATER
    A Prostituta que há no Homem

    Rubia Abs da Cruz

    “Elas gostam de apanhar” – esse foi o título de um artigo publicado na Folha de São Paulo, por Luiz Felipe Ponde, com muitas referências a Nelson Rodrigues e que se fundem no texto. E exatamente por isso, resolvi manifestar contrariedades, à leviandade de um texto, que em tempos de “Gabriela”, se torna ainda mais temerário.

    Contrária ao que escreveu Pondé, penso que o mundo é um lugar bom! Mas temos pessoas não tão boas no mundo. Talvez eu não seja “adulta” o suficiente, o que nesse caso, acho até bom. Desculpem, mas creio que serei irônica vez que outra.

    Aproveito para saudar a democracia e o processo civilizatório! Assim podemos debater o que pensamos sem violência física, ao menos. Possibilidade recente, advinda de um novo contexto social, já que nós mulheres não tínhamos direto a dizer ou escrever o que pensávamos, e tampouco à educação e profissionalização. Assim, saúdo também ao feminismo!

    No que se baseia a separação entre mulher e prostituta?

    Deveríamos ter realizado mais marchas das vadias para nos fazermos entender. Queimarmos as calcinhas talvez… Essa dualidade ou cisão foi criada e absorvida pela humanidade. Seria bom contar com mais pessoas que chegaram até Simone de Beauvoir. Não somente lendo, mas compreendendo sua filosofia enquanto “especialista na alma humana” (Ponde). Mas somente ler não basta. Já tentava dizer Nietzsche, quando não era compreendido por grande parte da humanidade! Ainda bem que a alma humana tem muitos especialistas para além de Nelson Rodrigues.

    Aproveito algo que circulou na mídia para exemplificar, e pergunto: – Sandy tem um lado devassa ou tem uma devassa dentro dela?

    A mulher não encena, a mulher sente! Embora todos e todas nós possamos encenar em vários contextos do dia-a-dia e da noite também. Mas sinto muito, por quem somente vivenciou encenações e se relacionou com pessoas que se vendem! Na vida e no sexo!

    E partindo de uma das máximas de Nelson Rodrigues trazido no texto, “Dinheiro compra até amor verdadeiro.” Busco refletir:

    – O dinheiro pode comprar quase tudo! O dinheiro compra homens!
    Não compra somente mulheres.

    Pois então, aí reside “ A prostituta que há no homem”. Alguns se vendem pela comida gostosa todo dia… Brincadeiras à parte, gostaria que fizéssemos um exercício de pensar que o “homem” da frase acima, fosse compreendido, como usual na nossa linguagem, como homens e mulheres. É assim que a linguagem também exclui o feminino. Homem quer dizer homem e mulher! Poderíamos dizer que: – O homem é interesseiro. Que o homem só pensa em dinheiro. O homem engravida. Nesse último cabe um comentário, porque o homem, nesse caso o macho, engravida sim. Quando não usa preservativo… e aí, a responsabilidade não é somente da mulher como se costuma dizer por aí.

    Não buscarei a hipocrisia e nem viver no “mundo de Alice”, mas admito que não consegui “escapar dessa armadilha que é interior”, e devido a um “desejo incontrolável”, quase pecaminoso, segundo Sábato Magadi, descrito por Ponde, de me manifestar, pois poderia simplesmente ignorar mais um artigo dessa linhagem.

    Então, já que caí na armadilha desse texto, sigo: “que ensinem mais Nelson Rodrigues e menos Foucault”, não seria o principal problema da abordagem, (embora discorde) não fosse a máxima rodriguiana que mais me preocupou: “a vida é sempre amor e morte”.
    Dependendo da interpretação, pode estimular homens a matarem suas mulheres, por se sentirem legitimados socialmente. Quantas vezes escutamos dizer que ele matou porque amava muito ou devido ao ciúmes. Isso é alguma outra coisa, mas não amor. No nosso Estado 50 mulheres foram mortas nessas circunstâncias em 8 meses. Menos mídia as desgraças sociais talvez pudesse ajudar. Exatamente por isso, não se noticiam suicídios! Ou talvez menos programas como “Gabriela”, onde homens matam as mulheres e a polícia nem se preocupa em investigar. A Lei Maria da Penha surgiu devido a um caso semelhante. A vida como ela é!

    “A submissão ao macho desejado” colocado por Pondé, faz com que muitos homens submetam mulheres ao sexo, contra sua vontade, fazendo com que tenhamos atualmente uma média de 90 mulheres estupradas por mês somente no Rio Grande do Sul e de meninas, sobe para a média de 200 casos mensais. Esses dados não podem ser ignorados.

    Devemos ser responsáveis por nossas ideias em uma sociedade de desigualdades intelectuais, com “mulheres normais” e com homens que gostam de bater e de submeter às mulheres ao seu prazer. Esse “homem” também pode ser interpretado como homem e mulher. Ou não?

    Sei que responder a esse texto é perigoso, e que alguns homens e também mulheres, podem pensar sobre mim: – Que idiota moral!
    Brincadeira. Poderão pensar quase que de forma condicionada, adjetivos piores. Não me importa. Na nossa sociedade mulheres que pensam, reagem e se posicionam também são consideradas prostitutas. Não precisamos nos vender nem fazer sexo para assim sermos nominadas. Basta pensar e transgredir!

    O que é ser um idiota moral mesmo?

  3. Se achar um intelectual é uma coisa, sê-lo é bem outra, intelectual possui conhecimento, pensa, não acha, e o teu texto que só agrada proeminentres babacas como vc, está literalmente baseado em achismos, algo totalmente empírico sem base científica , sem conhecimento, porque vc além de ser um proeminente babaca, é muito feio, resumindo, não “come” ninguém faz tempo, a não ser claro, como bem revelas nas entrelinhas: pela força, no tapa.

    MMM-RS

    • Você deveria ler Nelson Rodrigues e olhar para a vida como ela é. Deixa eu te perguntar: você já saiu com algum rapaz franzino, de óculos, sem graça, babão, com aparelho de dente, que dissesse a você que te ama no primeiro encontro e te desse um buquet de flores ! Se você já ficou com um cara desse perfil, aplausos pela sua coragem. Se não, obrigado por ser uma menina normal que gosta de rapazes normais. Hipocrisia é muito feio.

  4. Mulher não gosta de apanhar não. Homem é que tem essa fantasia de ser todo poderoso e gosta de bater. A mulher gosta mesmo é de agradar. O que satisfaz a mulher é estar agradando o homem, as palmadas ela tolera em nome do agrado. Era só olhar com um pouquinho mais de atenção que seu Nelson teria acertado.

  5. ahahahaha não concordo com nenhum dos 3 comentários acima. O que se quis dizer foi algo assim “sedutor”, “sutil ” de um casal que tem muita química e curti na intimidade das quatro paredes. Gostar de apanhar: explica-se são aqueles tapinhas bem dado na hora certa e na dose certa… Ah! A PEGADA é tudo. Não estamos falando do homem que espanca a mulher, mas daqueles que também tem a sua porção “prostituta” dentro de si, ou como se diz “a malandragem” estamos falando “daqueles tapinhas” que faz toda a diferença e há muita diferença entre violência conta a mulher e o tapinha em questão. Concordo absolutamente com a frase: A mulher que nunca encenou “sua” prostituta no sexo, nunca fez sexo. Liberdade de expressão, esta é a minha.

  6. Eu não sei como o Pondé consegue ser tão brilhante no que ele escreve. A querida Rúbia aí em cima não sabe de nada. Aliás, sabe, mas não quer contar. Mulheres não gostam de apanhar fisicamente: gostam de apanhar por dentro. Explico. Uma mulher dificilmente se sente atraída por um homem que se apresente falando baixo, com timidez e sem saber usar as palavras. Acredito que a Rúbia não goste de homens pouco transgressores. Pois bem. Homens transgressores tratam mulheres como seres humanos normais, sem colocá-las num pedestal e sem puxá-las pelos cabelos. Mulher não gosta de homem bonzinho: nenhuma mulher transa com o rapaz franzino que lhe entrega flores no primeiro encontro. Mulheres gostam de homens decididos. Não precisamos puxá-las pelos cabelos para a caverna: falamos que o cabelo está bonito, como o da vizinha ao lado. Falar que ela está usando um vestido lindo, parecido com o da vizinha, é extremamente sedutor: ao mesmo tempo em que elogiamos, colocamos a amada no devido lugar. Nelson Rodrigues entendia disso, e Pondé também. Não há mulher santa. Até Maria precisou ser engravidada (nem que fosse pelo Espírito Santo).

    Que conversa é essa de transgressão, Rúbia!! Você deve ser uma mulher que não sai de casa sem estar belamente vestida!! Para mim, mulher transgressora é aquela que usa burka num país como o Brasil, onde todas querem mostrar tudo. Comece a usar burka no Brasil, Rúbia. Aí eu chamarei você de transgressora.

  7. Acho que cada um dos comentaristas aqui apresentam um pouco de sua própria razão. A Rúbia por se recusar acreditar que a mulher não deve se submeter ao homem, nem na cama. Como disse a Valéria, mulher gosta de agradar, mulher brasileira é meio Amélia, mas também tem pomba gira dentro de si, basta pegar o cara certo, e realmente Alessandro, mulher não gosta de homem bonzinho, que ela veja como fraco, um banana. Ela até casa com ele, mas não goza com ele, finge, aí é pior do que levar palmada pra agradar…

    A Ilza deve ter razão por achar que o Pondé não come ninguém, pois geralmente a filosofia é o sepulcro do sexo, e o Pondé é tão crítico que deve preferir orgasmos intelectuais se encontrar uma interlocutora inteligente, mas disso eu também gosto, seria capaz de ter um ou dois com ele, que não acho, em absoluto, feio, mas acho chato, quase pedante, mas com muita propriedade.

    No entanto, o que estamos discutindo aqui é sua análise, que considero genial, especialmente em se tratando de cultura brasileira do estereótipo da santa puta e do malandro romântico. Aqui tem homem que ainda separa mulher pra transar e mulher pra casar. No fundo eles querem uma santa na mesa e uma puta na cama, e as mulheres ainda querem um cara de pegada mas que ligue no dia seguinte.

    Estamos falando do conflito entre as fantasias sexuais declaradas ou não, e o comportamento socialmente desejado, seja da mulher feminista, da transgressora estilo Leila Diniz, da santinha tipo Sandy ou puta declarada. E tem lugar pra todo mundo, o importante é buscar aquilo que dá prazer e conseguir um parceiro compatível, senão, vai ser tudo encenação e descontentamento, aí, sexo vira um porre!

    • Tati, gostei do seu comentário. Claro, direto e bem concluido.

      E o principal: sem “papagaiadas”, sem destratar o Pondé (achá-lo pedante é bem diferente de desfiar uma lista de apelidos pejorativos e bobos), o que seria uma total perda de tempo, já que ele não deve ler nenhum dos comentários neste blog. Algumas pessoas não percebem isso, embora exista um AVISO na página principal.

      Raramente faço qualquer comentário sobre os artigos, mas creio que deduzir o tipo de vida sexual que o Pondé leva baseado nos textos que ele escreve é de uma ingenuidade sem tamanho.

      Abraço,

      Michael (Eq. Pathfinder)

  8. Ops Errata: “A Rúbia por acreditar que a mulher não deve se submeter ao homem, nem na cama”

  9. O Alessandro Mojia tava inspirado quando escreveu isso!! Gente, o cara é quase um Pondé II.

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