Kubrick de olhos bem abertos (11.11.2013)

Stanley Kubrick by Katsuhiro Otomo (creator of AKIRA)

Stanley Kubrick por Katsuhiro Otomo (criador de “Akira“)


Depois de ler sobre pré-história, minha percepção do mundo mudou. Para começo de conversa, o tema da violência na condição humana é melhor compreendido quando olhamos para nossos ancestrais do Paleolítico Superior do que quando tentamos compreendê-lo a partir de ideias como “o modelo social está ultrapassado”, apesar de saber que frases como essa dão orgasmo em muita gente.

Somos seres do desejo, e não de razão. Com isso não quero dizer que não sejamos racionais, mas sim que o desejo se impõe à razão. Freud e Lacan bem sabem disso. Schopenhauer e Nietzsche também sabem isso. Devoramos tudo à nossa volta por conta dessa força irracional chamada desejo.

O cineasta Stanley Kubrick (que aliás está “nos visitando” no Museu da Imagem e do Som, o MIS) entendeu bem esse aspecto: é na pré-história e no desejo que melhor entendemos nossa desorganização interna, nossas contradições e a luta que temos cotidianamente contra elas. Refiro-me a dois dos seus filmes, “2001, Uma Odisseia no Espaço“, de 1968, e “De Olhos Bem Fechados“, de 1999.

O primeiro se abre com o momento descrito como “aurora”. Nessa sequência, dois bandos de homens pré-históricos disputam a posse de um pequeno lago. O mais fraco perde. Depois, acuados, comem ervas embaixo de uma pedra, atormentados por predadores à noite.

Um deles, na manhã seguinte, descobre que, tendo um osso nas mãos, consegue ficar mais forte. Matam um animal grande e “se tornam” carnívoros (o vegetarianismo é um comportamento ultrapassado evolucionariamente). Mais tarde, munidos de ossos nas mãos, atacam o bando que os haviam expulsado do lago. O “novo homem”, com uma arma na mão, retoma o lago. Na cena seguinte, joga o osso para cima e este vira uma nave espacial. Chegamos ao futuro da pré-história.

Já na última parte do filme, vemos o primeiro computador com inteligência artificial se “revoltar” contra os dois astronautas da nave. O que o filme nos revela? Que o “avanço técnico” seguramente está associado à violência.

Isso não significa que seja “bonito”. Hoje em dia, por causa do modo como se dá o debate público, baseado em caricaturas do outro, difamação e simplificação ridícula (tipo: quem não pensa como eu é racista, “sequicista” e a favor da TFP), torna-se necessário fazermos reparos como esse: reconhecer a relação de implicação entre melhoria material da vida, avanço cultural e uma dose de violência não significa achar isso bonito, mas sim reconhecer o grau de ambivalência que marca nossa condição. Mas, num mundo de mimados, como é o nosso, dizer isso parece ser “gostar” disso.

O que Kubrick está dizendo aqui é que provavelmente nossa história de ganhos técnicos implica um alto grau de risco. O problema é que queremos os ganhos, mas, no mundo da carochinha, no qual vivem os mimados, parece ser possível zerar a ambivalência. Nada disso quer dizer que devemos cultivar a violência, mas que não adianta pintar sua cara com cores de anjo porque só vai convencer gente boba.

No outro filme, “De Olhos Bem Fechados”, Kubrick dialoga profundamente com Freud. O filme é baseado, em última instância, num sonho de Freud no qual ele entra num trem e um aviso diz que ali só permanecem pessoas de olhos bem fechados.

O sonho está dentro do processo de “autoanálise” de Freud, no qual ele descobre o complexo de Édipo e sua vergonha pelo fato de o pai não ter reagido a uma humilhação feita por um grupo de antissemitas testemunhada pelo menino Sigmund. O tema envolve a ambivalência dos sentimentos e desejos da criança para com os pais.

No filme, a mulher (a deusa Nicole Kidman) conta para o marido (Tom Cruise) que um dia desejou fazer sexo violento com um oficial da Marinha que ela tinha visto num hotel quando eles estavam num momento “família” (quis ser a “puta” dele). Com isso, ela joga o marido num total desespero, que só se encerra quando ela o chama para trepar (“let’s fuck”).

O desejo da bela e bem comportada mulher revela ao marido que nem ela escapa da desorganização do desejo sexual “ilegítimo”. A vida ordenada está sempre por um triz.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 11.11.2013)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 11/11/2013.

Uma resposta to “Kubrick de olhos bem abertos (11.11.2013)”

  1. Como é que alguém pode se dizer conservador citando Nietzsche, Schopenhauer, Freud, Lacan, os mesmos autores que são lidos e celebrados por todos os movimentos revolucionários que têm por alvo preferencial a moral judaico-cristã? Cadê os conservadores pra colocar o Pondé no lugar dele, ou seja, na esquerda?

    Os revolucionários também acreditam na evolução, tanto que eles se consideram os forjadores de uma sociedade moderna, evoluída, dos modernos cientistas humanos que veem em um filme de Stanley Kubrick a pré-história da humanidade.

    Não precisamos mais estudar. Vamos assistir Kubrick, von Trier e Bergman e conheceremos a verdade das coisas. Sempre foi sonho revolucionário substituir a ciência pela arte.

Comentários encerrados.

 
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