Uma mulher linda (30.09.2013)


Recentemente participei de um debate sobre a trilogia “Cinquenta Tons”. Muitas críticas: típico best-seller que identifica um drama universal (o amor) e propõe uma solução “easy” (seja sadomasô light e o casamento virá); a srta. Steele (a heroína) não está a altura de Lady Chatterley (de D.H. Lawrence) nem das irmãs Justine e Juliette (do Marquês de Sade) nem da personagem de “História de O” (de Anne Desclos, sob o pseudônimo Pauline Réage), porque a srta. Steele se vende por um MacBook Pro, enquanto as outras são para valer. Tudo verdade.

O maior pecado de “Cinquenta Tons” é que ele vende uma fantasia: o homem ideal. Christian Grey é rico, bonito, inteligente, viril, experiente. Mas o fato é que as mulheres desejam mesmo homens fortes, viris, sensíveis até a página três, ricos não só de grana. Enfim, “Cinquenta Tons” vende porque fala para todas as mulheres, bobas, ignorantes, cultas ou críticas. Mas, como virou moda mentir, ninguém confessa.

Dias depois do debate, revi um filme idiota americano (como “Cinquenta Tons”), em que um milionário fodão (interpretado por Richard Gere) contrata uma garota de programa (Julia Roberts, ah! Se todas fossem iguais a você, Julia, que maravilha viver…) e acabam se apaixonando. Claro, o filme é “Uma Linda Mulher”. A fórmula clara da gata borralheira do sexo que vira a esposa Cinderela.

Mas o longa é muito mais do que isso. Diante da crítica histérica de que é mais um filme machista (que sono…), vale notar que ele faz a pergunta que mata de medo as mulheres: afinal, o que quer o homem numa mulher?

Dirão as apressadas que o homem quer que a mulher traga uma cerveja e venha pelada. Errado: melhor de calcinha e salto alto. Seria a superficialidade masculina o último bastião da ideologia “dominante”? Bastião este que agrada a todas as mulheres porque as acalma: os homens só querem uma bunda!

O filme toca num tema atávico que deixa mesmo as meninas “críticas” de cabelo em pé: seria a garota de programa a mulher ideal?

O personagem de Gere é fodão. Ele sabe o que os fodões sabem: o mundo é repetitivo, e as pessoas são previsíveis. Querem dinheiro, reconhecimento e “serviços”, e fazem qualquer coisa para conseguir, embora neguem. Se, no fundo, todos estão à venda por “um programa” de sucesso, melhor sair com alguém mais honesto: a garota de programa é a mulher menos cara do mundo. Ela “só” quer dinheiro, e isso às vezes é uma bênção. Ela é a mulher ideal porque é a única diante da qual o homem relaxa.

Afinal, o que quer o homem numa mulher? Num dado momento do filme, Gere diz à bela Roberts: “As pessoas são previsíveis, mas você me surpreendeu” (não vou contar detalhes). Não devemos menosprezar essa fala e o que acontece depois, o apaixonar-se pela garota de programa. Gere sabe o que diz: as pessoas são mesmo previsíveis. Mas hoje a moda é dizer que são todas “únicas”.

La Roberts encanta o fodão porque ela não é óbvia, e a mulher óbvia só quer fodões. Graças a ela, ele rompe o ciclo da desconfiança causada pela obviedade das mulheres, e graças a ele, ela se cansa de ser puta, porque a puta não é uma mulher de verdade.

Os homens sentem que as mulheres querem deles apenas sucesso (em todos os sentidos). Mas hoje virou moda dizer que isso não é verdade. Ficou pior porque continua sendo verdade, mas, quando o cara sente isso, ele deve se sentir um machista porque sabe disso. O homem quer uma mulher para quem ele não tenha que ser o sr. Grey, mas a mulher não perdoa um homem fraco. A garota de programa perdoa porque “só” quer dinheiro.

A fraqueza masculina aniquila o desejo da mulher. Mas, como essa mulher ideal não existe (assim como o sr. Grey), o ideal acaba ficando colado ao corpo irreal da namorada “paga”.

Mesmo sabendo que sr. Grey (um fodão) não existe, as mulheres não suportam homens que não se pareçam com ele, e esta é a verdade suprema de “Cinquenta Tons”.

Por fim: uma amiga minha, psicóloga, me disse que muitos dos seus pacientes vêm ao consultório falar de como suas mães (fálicas) destroem seus pais (fracos). São essas mulheres fálicas, segundo ela, que à noite gemem de solidão sonhando com o sr. Grey.

Óbvio?


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 30.09.2013)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 30/09/2013.

3 Respostas to “Uma mulher linda (30.09.2013)”

  1. Esse é um dos melhores textos do Pondé.

  2. filosofia no brasil virou essa conversa de boteco onde o maior desejo de todo homem é reduzido apenas à bunda da mulher. enquanto o país afunda na corrupção, na falta de saneamento básico e a violência urbana mantém os cidadãos reféns dos bandidos, nossos filósofos estão aí na praça falando de glúteos, bundas, sexo de quatro, como se não houvesse nada mais importante. e para eles não têm mesmo, oras! é tudo um oba-oba Obama-lulista.

    um dos sinais mais evidentes da vida debaixo de uma despótica tirania é esse louvor de tudo que é libidinoso, luxurioso, de tudo o que, como dizia o esquerdão Zuenir Ventura, vem lá do baixo-ventre. vamos dar glúteos redondos para o povão e tá tudo certo.

    é bem nessa que os libertários caíram nas redes dos marxistas. ou alguém aí conhece marxista que entra em favela pra falar mal do bumbum das mulatas do samba? essa conversa de que feminista brasileira fica histérica ao ver a bunda das outras estampando capas de revista já passou. negócio agora é o pancadão gritando a madrugada inteira que as casadas têm que largar os maridos e curtir a farra com a garotada do baile.

    quem enxerga nossa direita colocar a bunda como o topo do desejo nacional, só pode esperar sair da direita aquilo que sai da bunda mesmo.

    filósofo de direita faz que nem esquerdista: pensa com as pregas.

  3. O cara é filósofo e fala sobre política em vários textos e entrevistas. A relação entre homens e mulheres é um tema que deve ser levantado sim, qual o problema em dar a opinião sobre isso? Prefere um texto de direita cheio de histeria ou ilusão esquerdista utópica, do tipo: vamos mudar o mundo amanhã!…?

    Não viaja amigo, o louvor à luxúria sempre existiu, com tempos bons ou ruins, em qualquer parte da História. Faz parte da natureza humana.

    O brasileiro gosta de bunda, fazer o quê?

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