A noite escura de Terrence Malick (12.08.2013)


Amor Pleno“, novo filme de Terrence Malick, é um exemplo do que o místico espanhol do século 16 San Juan de la Cruz chamou de “noite escura da alma”. Não é à toa que o padre (Javier Bardem) tem um discurso muito colado ao do místico espanhol. Ele é o personagem central da narrativa. Como sempre, sem teologia e filosofia, não se entende Terrence Malick.

Por consequência, o filme está próximo do texto bíblico “Cântico dos Cânticos”, peça fundamental da literatura mística ocidental, influência marcante no místico espanhol: “Onde Te escondestes que não Te encontro, meu Deus?”. No “Cânticos”, o amor entre Deus e a humanidade é representado pelo amor entre um homem e uma mulher, suas agonias, prazeres e ausências. “A Noite Escura da Alma” é, como “Cânticos”, um texto erótico.

“O amor de Cristo pela sua igreja é como o amor de um homem e uma mulher”, diz Bardem. Eis a chave para entendermos o poema místico que é “Amor Pleno”. No cristianismo, amor não é mero afeto, mas a ação que nos faz existir. Sem ele, a vida esvazia. Nesta chave, o amor entre Ben Affleck e “suas” duas mulheres está também “sob” o véu da noite escura da alma, assim como está o amor do padre por Deus e o mundo. Ele é incapaz de amar, elas sofrem por isso.

O filme encerra com a imagem do Mont Saint-Michel, na França, local onde o casal vai no começo de seu amor. Esta abadia é símbolo da vida monástica medieval. Os filósofos vitorinos (Hugo e Ricardo da Abadia de São Vitor, século 12), em sua teoria sobre o amor, entendiam que o amor, posteriormente dito romântico, era da mesma substância do amor de Deus.

Assim como é difícil para nós mantermos o amor por Deus, é difícil sustentarmos o amor entre um homem e uma mulher. Nossa natureza “caída” não suporta o “peso” do amor. Este “peso” assume várias formas, entre elas, o compromisso com ele, principalmente no vazio que o cotidiano instaura em nosso coração e corpo sedentos.

Nossa natureza tende “para baixo”, para o tédio e a insatisfação, como diz a mulher francesa no filme quando se refere às duas mulheres que existe nela: uma tende para o amor, para o alto, a outra para baixo, para a terra. Não é à toa que ela, a francesa, após uma longa conversa com a amiga italiana, niilista e entediada, chega ao adultério, símbolo máximo do tédio e da degradação do amor. Quando nos distanciamos do amor, nos dissipamos num desejo que nos leva ao nada.

Mas, o que vem a ser esta “noite escura da alma”? Quando falamos de mística, pensamos normalmente em êxtase, em “gozo místico”. Mas, a “noite escura” é o momento em que a alma, conhecedora de Deus, deixa de senti-lo no seu cotidiano, o que a leva à solidão, ao desespero e à dúvida. Uma verdadeira mística da agonia.

Neste momento, o padre lembra a máxima do Evangelho: “Você deve amar”, portanto, o amor não é mero sentimento, mas sim uma ação, como é dito no filme. Agir com amor, mesmo que não sintamos o amor. Para ele, continuar cuidando dos doentes, para o casal, continuar a cuidar um do outro, porque longe do amor, somos todos doentes, umas criaturas da noite que vagam numa escuridão sem fim. No escuro, não é só o outro que desaparece, mas nós também.

O padre chega mesmo a lamentar o fato que, em seu ministério, ele deve “fingir” sentimentos que não tem, assim como um casal deve continuar a amar (esta é a condição do amor como “ação” e não mero sentimento) mesmo quando a paixão desaparece.

Quando nos sentimos longe do amor (de Deus), vemos nosso nada, isso deixa nossa alma inquieta, sedenta. Como é dito em “Árvore da Vida”, filme anterior de Malick, a vida sem amor “flashes by”, apenas passa. Esta é a chave para passarmos do “Árvore da Vida” ao “Amor Pleno“. A responsabilidade dos que “amam menos”, como diz o padre, se referindo a ele e a Ben Affleck, é maior, porque são eles que enxergam melhor o vazio no coração da vida.

Os ecos da “noite escura” atingem toda a existência, para além da teologia, adentrando a solidão nossa de cada dia. O drama maior não é não ser amado, mas ser incapaz de amar. 


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 12.08.2013)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **





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~ por Pathfinder em 12/08/2013.

3 Respostas to “A noite escura de Terrence Malick (12.08.2013)”

  1. Ter que saber teologia para “entender” um filme é o fim da picada. Esse diretor se mostra cada dia mais pretensioso.

    • Não confunda a leitura que o Pondé fez do filme com as intenções do diretor, que nos são desconhecidas, uma vez que ele não dá entrevistas a respeito. O filme pode ser lido de inúmeras maneiras, não necessariamente através de teologia. Pode ser entendido sem nenhuma teoria como apoio, apenas com seu coração. A leitura teológica é a opinião do Pondé, apenas isso. Logo, a “pretensão” que você vê, se é que há mesmo alguma quando uma pessoa se ampara em conceitos teológicos e filosóficos para escrever um livro ou um roteiro de filme, só pode ser atribuida à leitura do Pondé, não ao trabalho do Terrence Malick.

      O diretor americano mantem-se coerente com sua forma peculiar de fazer cinema (em grande parte, um cinema contemplativo) desde seu primeiro filme. Equívoco seu pensar que há uma “pretensão crescente” acumulando-se com o passar dos anos. Ou você encara o trabalho dele como “pretensioso” desde o início, ou é melhor deixar de lado esse ponto de vista. No que diz respeito à cinema, todos os criadores são pretensiosos, sob o ponto de vista mais superficial e banal possível. Malick faz filmes de acordo com sua peculiar sensibilidade e forma de ver o mundo. Se ele tem uma forte formação filosófica, anterior à carreira como cineasta, seria difícil não se amparar nela para construir suas obras cinematográficas. Até aí, isso não implica que você ou qualquer outro espectador precise ententeder de filosofia para assistir o filme.

      Desculpe, mas sua reclamação está meio “desfocada”. Não gostou da leitura de Pondé, reclame com ele. Não bote a culpa no diretor, que é um dos melhores em atuação nos dias de hoje, junto com Michael Haneke, Lars von Trier, Charlie Kaufman e mais alguns poucos. Você e muitas outras pessoas podem não gostar de como ele constrói um filme, mas isso não implica que ele seja pretensioso porque faz cinema de forma não usual. Nesse sentido, gosto (ou mau gosto) não se discute.

      Em última análise, todo e qualquer diretor ou cineasta é pretensioso ao achar que seu trabalho pode interessar alguém. Ninguém escapa dessa pretensão, a começar pelo cinema hollywoodiano com suas mega produções que visam apenas deixar o espectador em estado vegetativo diante do show de artifícios sem sentido, que nada acrescentam além de entretenimento vazio por um par de horas.

  2. O importante é que a fotografia é l-i-n-d-a.

Comentários encerrados.

 
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