A espiritualidade das pedras (29.07.2013)


Meu Deus, como ter um “eu” cansa! Os místicos têm razão. Não é necessário ser um “crente” para ver isso, basta ter algum senso de ridículo para ver o quão cansativo é satisfazer o “eu”. E a modernidade é toda uma sinfonia (ou melhor, uma “diafonia”, contrário da sinfonia) para este pequeno “eu” infantil.

Outro dia, contemplava pessoas num aeroporto embarcando para os EUA com malas vazias para poder comprar um monte de coisas lá.

Que vergonha. É o tal do “eu” que faz isso. Ele precisa comprar, adquirir, sentir-se tendo vantagem em tudo. O “eu” sente um “frisson” num outlet baratinho em Miami. O mundo faz mais sentido quando ele economiza US$10. E o pior é que, neste mundo em que vivemos, faz mesmo sentido. Qualquer outra forma de sentido parece custar muito mais do que US$ 10.

A filosofia inglesa tem uma expressão muito boa que é “wants”, para se referir a nossas necessidades a serem satisfeitas. Poderíamos traduzir de modo livre por “quereres”. O “eu” é um poço sem fundo de “wants”. Isso me deprime um tanto.

Como dizia acima, a modernidade é toda feita para servir ao pequeno autoritário, o “eu”: ele exige mais sucesso, mais autoestima, mais saúde, mais dinheiro, mais beleza, mais celulares, mais viagens, mais consumo, mais direitos, mais rapidez, mais eficiência, mais atenção, mais reconhecimento, mais equilíbrio, melhor alimentação, mais espiritualidade para que ele não se sinta um materialista grosseiro.

Outra demanda do “eu” que enche o saco é querer se conhecer. Você conhece coisa mais chata do que alguém que tira um final de semana para fazer um workshop de autoconhecimento e aí vai para jardins “fakes” na Raposo? E pior, quem tira seis meses para se conhecer depois dos 40 anos e acha legal? O autoconhecimento só é sério quando deságua em autoironia.

O império do “eu” se revela quando vivemos pela angústia de torná-lo “resolvido”. Nada é mais típico dessa angústia estéril do que alguém sempre atento às próprias dores.

Outra armadilha típica do mundinho do “eu” é a idolatria do desejo. A filosofia sempre problematizou o desejo como modo de escravidão, e isso nada tem a ver com a dita repressão cristã (que nem foi o cristianismo que inventou) do desejo. Problematizar o desejo tem mais a ver com um conhecimento sutil, fruto da experimentação que a realização do desejo sem idealizá-lo traz. A idealização do desejo é marca da condição adolescente ou reprimida.

O “eu” falante inunda o mundo com seu ruído. O “eu” mais discreto tece um silêncio que desperta o interesse em conhecê-lo. Mas hoje vivemos num mundo da falação de si, como numa espécie de contínuo striptease da alma. O corpo nu é mais interessante do que a alma que se oferece. Por isso toda poesia sincera é ruim (Oscar Wilde). O “eu” deve agir como as mulheres quando fecham as pernas em sinal de pudor e vergonha.

A alta literatura espiritual, oriental ou ocidental, há muito compreende o ridículo do culto ao “eu”. Uma leveza peculiar está presente em narrativas gregas (neoplatonismo), budistas (o “eu” como prisão) ou místicas (cristã, judaica ou islâmica). Conceitos como “aniquilamento” (anéantissement, comum em textos franceses entre os séculos 14 e 17), “desprendimento” (abegescheidenheit, em alemão medieval) e “aphalé panta” (grego antigo) descrevem exatamente esse processo de superação da obsessão do “eu” por si mesmo.

A leveza nasce da sensação de que atender ao “eu” é uma prisão maior do que atender ao mundo, porque do “eu” nunca nos libertamos quando queremos servi-lo. Ele está em toda parte como um deus ressentido.

Por isso, um autor como Nikos Kazantzakis, em seu primoroso “Ascese[trecho do livro & citações], diz que apenas quando não queremos nada, quando não desejamos nada é que somos livres. Muito próximo dele, o filósofo epicurista André Comte-Sponville, no seu maior livro, “Tratado do Desespero e da Beatitude“, defende o “des-espero” como superação de uma vida pautada por expectativas.

Entre as piores expectativas está a da vida eterna. Espero que ao final o descanso das pedras nos espere. Amém.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 29.07.2013)  | Outra fonte para este artigo: AQUI





** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 02/08/2013.

2 Respostas to “A espiritualidade das pedras (29.07.2013)”

  1. Luiz Felipe Pondé eu não tenho cultura suficiente em ler livros de tratados filosóficos mas compenso minhas deficiências caçando entrevistas suas pela Internet; por exemplo com o Antonio Abujamra Provocações. Assisto entrevistas de pessoas que acrescentam.Luiz Felipe Ponde,Ricardo Boechat, Jose Renato Nalini,Cientista Joel Formiga e outros que vejo pela internet…TV I”m out…

    Sinto-me alegre ao perceber que pessoas como voces, postam em seus sites frases e o bordão: é tanto ladrão metendo a mão na nação;ao mesmo tempo é angustiante viver sujugado ao teor assassino dessa musica que sinceramente não alegra o meu espírito; não esto sendo hipócrita se ela me rende 1,real eu quero por se tratar do meu trabalho.
    Mas numa outra ponta se ela ajudar ao nosso país ,a nos livrarmos de Tantos abutres,já me dou por satisfeito. Nós não Alcançaremos um Brasil decente.

    Dica Guimarães Junior.

    CIRCO (A IMPUNIDADE ,A FALTA DE ÉTICA & RESPONSIVIDADE).

    VOCÊS NÃO VÃO MAIS NOS SUBESTIMAR
    NOS LUDIBRIAR
    NÃO VÃO MAIS FAZER TROÇA DE MIM
    VEJO A MULTIDÃO AGONIZAR
    SUFOCAR A DOR SEM REAGIR…

    NÃO VIVER NUM PAÍS INSEGURO / 2X NÃO VIVER NUM BRASIL TÃO INJUSTO
    NÃO TEM PASSADO, PRESENTE, FUTURO
    ONDE O SINAL ESTÁ SEMPRE FECHADO PARA MIM (PARA NÓS)
    É COMO DÁ UM SALTO NO ESCURO
    NÃO VEJO UMA LUZ NO FUNDO DO TÚNEL
    E O PODER SEMPRE EM CIMA DO MURO
    A SORRIR DE NÓS…

    O SOL VAI BRILHAR NO AMANHECER
    DO POVO EMANA A RAZÃO E O PODER (REFRÃO)
    CANSADO DE TUDO E DE TANTO CLICHÊ
    FAKE DÉMODÉ…

    VEJO TANTO ABUSO DE PODER
    E AS AUTORIDADES NÃO TÃO NEM AÍ (PARA NÓS)
    É CHEGADA A HORA VAMOS LÁ, LÁ, LÁ !!!!!!!!!!
    CONQUISTAR AS RUAS DO PAÍS…

    L&M: DICA GUIMARÃES Jr.:

    http://www.youtube.com/watch?v=sKYS6tGf86Q- vídeo in natura ,breve
    gravação em estúdio.

    https://www.facebook.com/groups/546557475393942/?fref=ts-Postagens
    de pessoas ,Rap Genius USA e Blogs etc.

    MARAGOGIPENSAMENTOS È : BRAINSTOMRM É ARTE DE PENSAR DOS MARAGOGIPENSES …
    ATÉ MESMO PENSAR QUE NÃO PENSAM VALE,

    MARAGOGIPENSES .RECONCAVO BAIANO .

  2. aqui está a musica que dá regozijo ,que fico inebriaido HEAD OVERHEELS
    embora seja uma gravação in natura.Eu eu gosto de cantar e traduzir as imagens que os bosques,parques e as pessoas me passam; porque Protestar é muito fácil,difícil é tornar a vida mais leve em no máximo 3 ,4.5 minutos através de uma canção. Tonar possível a espiritualidade das pedras.

    E. S .P

    VOU NAVEGAR DE NORTE A SUL O TEU CORPO NU
    VOU MERGULHAR NO OCEANO VOU FLUTUAR TUDO BLUE
    ONDAS E SONHOS CONDUZEM A LUZO SOL EM TI RELUZ
    DESATINANDO EM CORES SE TRADU-ZEN
    NOS TONS DAS FLORES INCOMUNS…

    EU DEIXO O VENTO ME SOPRAR NUM BARCO A VELA (REFRÃO)
    EU VOU SINGRAR O MEU CAMINHO
    E EM CADA PORTO QUE EU CHEGAR VEJO UMA ESTRELA ME GUIAR
    EU ESTAREI PENSANDO EM VOCE

    BOAS ” VIBRASONS” NINANDO A PAZ EXTRA SENSORIAIS
    MEGATONS SURREAIS , ULTRA SONS TRANSCENDENTAIS
    E EU AS TEMPESTADES ENFRENTEI LUGARES QUE PASSEI
    E EU OS SETE MARES NAVEGUE I VERDADES QUE SONHEI

    L&M: DICA GUIMARÃES Jr.: Demo Gravado em 14/08/2002

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