Mestre Eckhart, o herege (17.06.2013)


Mestre Eckhart, alemão morto em 1328, foi um grande filósofo, místico e herege, condenado em 1329 pela Inquisição.

Na época, a norma era pregar e ensinar em latim, apesar de as pessoas comuns não entenderem latim. Eckhart pregou e ensinou em alemão, e essa foi uma das acusações contra ele, porque, segundo os inquisidores, as pessoas comuns não entendiam sutilezas teológicas ou filosóficas.

Essas ideias sofisticadas versavam sobre a experiência direta de Deus, mais conhecida na literatura especializada como mística, além de ele defender uma forma de teologia que entendia o homem como “parte de Deus”.

Antes professor de grande sucesso de teologia sacra na Sorbonne, na cátedra de teologia para professores de fora do reino de França (Tomás de Aquino ocupara a mesma cátedra antes), mais tarde veio a ser transferido para uma atividade mais “paroquial” e menos intelectual em Estrasburgo. O intelectual Eckhart foi transferido para Estrasburgo a fim de cuidar das almas (“cura das almas”) dos grupos de espirituais, homens e mulheres, chamados “bégards” e “béguines”, que viviam ao redor da cidade.

Seu sucesso nas pregações serviu como argumento para seus invejosos inimigos políticos o acusarem de herege, acusação que acabou por destruir sua carreira e sua vida (ele morreu no ostracismo, quando era a maior promessa da ordem dominicana depois de Tomás de Aquino) –e condenou sua obra a séculos de desconhecimento pela filosofia e pela teologia.

Eckhart era um mestre do intelecto, um “mestre da vida”, como o caracterizou o medievalista Alain de Libera [entrevista de Pondé com o filósofo] em seu clássico “Pensar na Idade Média“. Nesse livro, De Libera descreve o perigo que era pensar fora dos muros da academia (ser um “mestre da vida”) e como isso gerava perseguição pela Inquisição.

Eckhart pagou um preço alto por sua ousadia; teria sido queimado se não tivesse morrido antes.

Nessa sua atividade com o “povo”, Eckhart ficou conhecido em especial pela sua aproximação com as mulheres espirituais, as “béguines”. Existe até um romance, que recomendo para quem lê francês, de Jean Bédard, que se chama “Maître Eckhart” (Mestre Eckhart) e narra o lendário relacionamento que ele teria tido com uma dessas mulheres, Kaltrei, que muito provavelmente foi queimada.

Um método comum da Inquisição era retirar argumentos escritos ou falados pelo réu do contexto original a fim “fazê-lo dizer o que ele não disse”.

E qual era a “psicologia” de um inquisidor? Normalmente bem formado, ele se via como alguém chamado a assegurar a pureza dogmática do cristianismo e a impedir a contaminação dos costumes por ideias indesejáveis.

Essas ideias se difundiam rapidamente pelo “povo” (mesmo antes da “maior” invenção do século, o Facebook…), e, por isso, era importante cuidar para que elas não fossem postas em circulação. Como ele se via como um defensor da pureza da verdade e dos costumes no mundo (logo, do “bem”), julgava-se autorizado a perseguir, calar e queimar quem discordasse dele.

O mundo não mudou muito desde então.


P.S.: Outras inquisições. Na semana passada, nesta coluna, critiquei os excessos de certos grupos que querem se meter nos brinquedos das crianças e nas posições sexuais dos casais. Aparentemente, um link enviado por um leitor, que constituiu uma referência entre várias, cita uma entrevista que nunca existiu.

Mas o festival de curtas sobre diversidade sexual narrado na coluna nada tem a ver com essa “armadilha da internet”: aconteceu em São Paulo, e eu estava presente. Nesse, sim, criticava-se a “posição de quatro” como sendo machista. Portanto, a crítica independe da falsa entrevista.

A condenação do sexo oral por motivos ideológicos também é fato.

Basta lembrarmos a campanha de anos atrás fora do país, quando uma foto de publicidade antitabagista mostrava uma mulher de joelhos, diante de um homem, com um cigarro na boca, condenando as duas formas de submissão: o sexo oral e o cigarro.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 17.06.2013)  | Outra fonte para este artigo: AQUI




** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 18/06/2013.

3 Respostas to “Mestre Eckhart, o herege (17.06.2013)”

  1. Resolvi seguir seu conselho e pensar fora dos muros da academia – saiu “isso” ai abaixo
    PROTESTAR É BOM, MAS VOTAR BEM É MELHOR AINDA.
    Como tenho dois amores – de paz e de desespero – que me atormentam noite e dia, aceitei seguir o conselho de meu compadre Fred Niet, e resolvi ser a consciência má do momento.
    Ora, o Brasil inteiro sabia que a Copa das Confederações e a Copa do Mundo seriam um verdadeiro vertedouro de dinheiro público, para quem mais esperto fosse. Não foi e não é novidade para ninguém, acostumados que estamos ao “caráter social e misantropo” não só de nossos políticos, mas também do resto do tripé de Montesquieu. Muita gente (muita mesmo) comemorou em Ipanema – pulando e gritando – a “benção” que a Fifa nos deu. O mesmo se diga quanto às Olimpíadas. Na terra dos “Lords” não foi diferente, por que aqui seria? Bem, ninguém quis escutar o baixinho.
    Do mensalão nem se fala – também já estava destrinchado pela imprensa bem antes de Dona Dilma falar mais do que um “bom dia” para o Lula. Alias, já nasceu exposto e escancarado para quem quisesse ver. Preferimos virar nosso rosto para outro lado, o lado da indiferença.
    Aumento de tarifa de ônibus nunca foi novidade não só em nossas Capitais, mas em todas as Cidades que possuem transporte público. Até pouco tempo atrás, subia junto com a gasolina.
    Qual a razão, então, do Brasil ter “despertado” só agora? Alguém pode explicar como, mesmo todos sabendo de tudo isto, caiu uma tempestade de votos na Dilma?
    Felicianos, Renans e Sarneys vira e mexe saem sempre aclamados das urnas, gargalhando de dar dó às nossas costas…
    Não sou Duarte, mas tenho medo, muito medo, quando as pessoas começam a mirar no Exmo.Dr. Joaquim Barbosa como futuro Presidente do Brasil. O sumo pontífice do Judiciário que revela sutis nuances psicológicas de autoritarismo, além de um complexo de “geocentrismo Ptolomaico” nunca visto em ares de cruzeiro do sul…
    “A história se repete” me cutuca meu compadre – “é o eterno retorno”. Afinal, já fizemos manifestações antes, tiramos Jango, e colocamos…quem??
    Lugar de mostrar indignação é na praça, mas lugar de mudar governo é na urna. Votando ou recusando-se a votar. Não nos esqueçamos do que dizia nossa outra consciência má (e pornográfica), esta Tupiniquim: “Toda unanimidade é burra”.

  2. Um liberal é um sujeito em cima do muro, que não quer se queimar com ninguém nem se manchar com nenhuma causa.

    Como todos os pensadores liberais, Pondé diz que joga contra o programa socialista, mas quando a gente topa com esses textos, em que ele faz da inquisição uma coisa pré-comunista, um tipo de totalitarismo, a gente percebe que ele joga do dois lados.

    Ele critica a Igreja por meio da Inquisição (que foi UM erro da Igreja, há muitos séculos), e isso agrada os comunistas. Dá joinha Jean Wyllys! Aí, depois ele joga contra os comunas, que querem regular o sexo de quatro, oral, e por aí vai.

    Então, o Pondé fica nessa malandragem, criticando todo mundo e levando vantagem em tudo, com esse arzinho de intelectual que cita texto em francês!

    Continua aí Pondé, jogando dos dois lados, que você sempre vai sair ganhando viu?

    abs
    Tommaso

  3. Concordo, Tommaso. Acho que é por ai que os argumentos de Pondé fracassam. Nesta mesma linha eu ia responder ao Sergio aí acima, mas acho melhor que ele obtenha as respostas da própria história que está sendo escrita. Compartilho de várias opiniões de Pondé quanto a nossa natureza trágica. Então gostaria que ele esclarecesse como ela se relaciona com a “unanimidade burra”, citada por Sérgio acima, ou mesmo a máxima que Pondé costuma tomar emprestado, de que “a democracia dá voz aos idiotas”. Pensamento típico direitista, liberal, seja o que for, velho. Não se quer mais discutir o tema direita vs. esquerda. Isso tem mais de 200 anos. Pois bem, o efeito manada, característico da nossa condição trágica, pode ser burro, mas ao mesmo tempo é sábio. Só assim os mamíferos africanos da savana obtêm algum sucesso neste mundo constantemente selvagem a eles. De fato, não dá para escapar. A manada está na rua.

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