Helena não tem culpa (18.03.2013)

Detalhe de “A Intervenção das Sabinas” (1799)  |  Pintura de Jacques-Louis David


Dias atrás, uma amiga, alta executiva paulista, radicada no Rio, me mandou um e-mail com a cópia de uma resenha sobre um livro (fruto de pesquisa de campo) de um antropólogo, Napoleon Chagnon, que estudou os índios ianomâmis no Brasil e na Venezuela por muitos anos. Suas conclusões não são aquelas que a comunidade acadêmica, ideologicamente orientada na sua quase totalidade, costuma gostar.

Quem sabe, este “desgosto ideológico dos pares” (gente ávida por destruir oponentes teóricos) tenha sido responsável pelos desdobramentos negativos que o antropólogo teve em sua vida profissional por conta desta pesquisa. O livro (“Noble Savages“), que logo comprei, deveria ser lido nas escolas. Um tratado contra a tradição marxista, não só em antropologia, mas em tudo mais. Mas o que especificamente tem esse livro contra esta tradição?

Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo “Das Kapital” é apenas uma decorrência do principio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.

Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de “sociedade” a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela “sociedade”, eu seria um homem bom. Ao contrário do que parece, essa tradição pegou porque alimenta algo de muito banal: que somos homens bons em nossa natureza essencial. Esta ideia alimenta nossa vaidade e não foi por outro motivo que Burke, filósofo britânico do século 18, chamava Rousseau de “filósofo da vaidade”.

Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara!

Também concordo que devemos olhar para o “passado” para entendermos como somos hoje. A diferença é que minha ideia de “estado natural do homem” é diferente da de Rousseau, o filósofo da vaidade. Partilho da ideia que para nos entendermos devemos olhar para a pré-história de fato, e não a mítica, como a do Rousseau.

Este mito alimenta uma outra bobagem: a ideia de que toda diversidade cultural é linda. “Viva a diferença!”, dizem os festivos por aí. A “humanidade”, na sua capacidade frágil de não ser bicho malvado, foi tirada das pedras, à custa de muito sangue. Sempre bebemos o sangue dos outros no café da manhã.

E aí voltamos ao livro. A conclusão de Chagnon é que os ianomâmis, parentes nossos que vivem muito perto do que seria o neolítico, tribos que permaneceram bastante “puras” enquanto outras já haviam sido “contaminadas pela maldade do homem branco” (risadas?), sempre se mataram por uma razão nada complexa: “mulher, mulher, mulher”. Inclusive, quem tinha mais mulher, tinha mais descendentes.

Qualquer evolucionista gargalharia diante de tamanha obviedade ocultada pelas interpretações ideológicas pueris da falsa história do bom selvagem. Os ianomâmis também têm suas Helenas de Troia. Entre eles, quem matava mais tinha mais mulher. Entre nós, quem é mais “adaptado” tem mais mulher.

Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.

Reconhecer que os ianomâmis se matam em troca de mulheres (ou se matavam enquanto eram “puros” ou “bons selvagens”) não é uma prova contra as mulheres. É uma prova contra Rousseau e sua tradição do bom selvagem. Eu, pessoalmente, acho até uma boa causa. Quero dizer, nos matarmos por mulheres. Neste caso, o troféu é bem concreto e todo mundo sabe de seu “valor de uso”.

Isto é, não precisamos de provas metafísicas para reconhecer o valor de uma mulher.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 18.03.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 21/03/2013.

10 Respostas to “Helena não tem culpa (18.03.2013)”

  1. O problema do Pondé está em desconsiderar estudos sérios no campo da ciências sociais (sim, ele existem!). O cara só lê e utiliza o quê serve ao seu determinismo, cada vez mais fanático! Não se trata de retirar do homem sua subjetividade, óbvio que não; trata-se de concluir pelo óbvio ululante: Somos seres racionais gregários, culturais por consequência; é sensato que consideremos nossas ações, decisões, êxitos e mazelas, como parte de um todo social.
    Gosto muito do Pondé, pela coragem de ir pro debate, mas esse modo medieval de pensar (ele mesmo admite que é um medieval), cansa às vezes!

  2. Ai, que triste, Pondé!

    Você me impede novamente publicar minha opinião. O que fazer?

    Sinceramente, Sheila Nunes

    • Você deveria postar a sua opinião, Sheila. Afinal, ela estará aqui mais para os leitores do blog que para o Pondé. É interessante que as pessoas com opiniões diversas sobre os textos do Pondé vejam o que os outros estão pensando.

      Não deixe de dar a sua opinião. Não há unanimidade sobre as ideias do Pondé, nem mesmo neste blog que é dedicado a ele.

  3. Quando eu era adolescente, havia quatros temas que não se discutia num boteco: política, futebol, religião e mulher. O resultado caso se insistisse era uma inevitável discórdia que, regada a álcool, terminava eventualmente com troca de tapas. Como tenho uma formação filosófica de botequim – diga-se de passagem, uma das melhores que existem – gostaria de comentar que o seu artigo é excelente. Pena que, para uma discussão mais acalorada, não haja mais botecos como antigamente em que a bebida alcoólica atiçava, não só as brigas, mas um monte de verdades mal educadas – hoje só restaram o cinismo e, como diria Nelson Rodrigues, os “amantes espirituais de Che Guevara”.

    Tenho certeza, Pondé, que muitas pessoas concordam com seu artigo, mas não o expressam por se sentirem pouco à vontade, ou deselegantes – dificuldades que persistem mesmo com doses mais significativas de uísque. Talvez numa sessão de psicanálise mais ortodoxa, quando o sujeito já não tem mais o que falar, escapam-lhe algumas frases: “Pondé tinha razão quando naquele dia…”, “agora entendo porque sou brocha,” “acreditei muito na sustentabilidade”.

    O importante do seu artigo é que ele traz uma velha novidade: que a obviedade precisa ser sempre reescrita. Andei folheando umas páginas “fora de moda” ou “ultrapassadas” e veja o que encontrei:

    “estava longe o culumin de ser o menino livre e imaginado por J. –J. Rousseau, criado sem medos nem superstições. Tanto quanto os civilizados vamos encontrar entre os selvagens numerosas abusões em volta à criança (…) Spencer salienta que a vida indígena não é doce nem idílica como supuseram os europeus do século XVIII” (Freyre, Gilberto Casa Grande & Senzala”)

    O nome de Gilberto Freyre já soa em alguns ambientes como conservador, reacionário ou ultrapassado; um autor que hoje que tem apenas o nome sussurrado, como um amor proibido que se revela em análise.
    abs

    • Excelente comentário, Marcos. Obrigado pela contribuição. Abraços,

  4. Existe sim um bom selvagem, basta o ser humano deixar de se fazer de vitima, e deixarem de coloca-lo como vitima, Pronto.

  5. Peraí, deixa eu ver se entendi:

    O que move a história não é a luta de classes mas a luta por mulheres… o que nos deixa como troféus, bonecas passivas esperando serem tomadas como propriedade enquanto os machos se matam para conseguirem perpetuar seus genes… (Ah, a guerra de Tróia foi mesmo por Helena e não por poder… e depois vem falar da superestimação do mito do bom selvagem…)

    Rousseau (e Marx) são filósofos da vaidade (mas Pondé, não, claro!) aham

  6. Não entendo qual o problema de alguém reconhecer a maldade que existe dentro do ser humano. O que Pondé faz é ir contra a maré, contra essa filosofia que contaminou o mundo com o “Tudo é permitido” “O homem é bom” Claro que existe bondade no homem, mas o que prevalece mesmo é a sua maldade e egoísmo. Não considero o Pondé nenhum pouco vaidoso, considero ele sincero. Ele fala o que os outros não falam. E quanto a mulher, mesmo sendo uma, nunca fui fã do feminismo, que é outra praga que vem dominando o mundo. Sério mesmo que precisamos estar provando nosso valor para os homens e para sociedade? Precisamos mesmo ser a super heroínas do universo? Só somos o que somos e mesmo em uma sociedade “pura” como as tribos citadas no texto, a mulher tem seu valor naquele contexto. Isso é uma realidade, não há porque querer negar. E negar só prova o lado egoísta das mulheres. Revelando assim a tão sonhada “igualdade”, tanto homens como mulheres revelam em quase sua totalidade de ações, a maldade que existe dentro de si. Só não gostamos de reconhecer, né? Prefiro enxergar aquilo que me confronta e que me leva a melhoras as atitudes, do que aquilo que massageia meu ego.

  7. “Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.”

    Eh eh, muito bom! Também escrevi algo a respeito:

    1- http://inter-ceptor.blogspot.com.br/2013/03/questao-indigena-1.html
    e
    2- http://inter-ceptor.blogspot.com.br/2013/03/questao-indigena-2.html

    E sobre a questão específica dos ianomâmis vale a leitura do e-book de Janer Cristaldo, o 1º jornalista que tenho conhecimento que desmascarou este construto ideológico:

    http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ianoblefe.html

Comentários encerrados.

 
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