“Nem o papa aguentou!” (15.02.2013)


No dia da renúncia do papa, uma amiga minha querida, portadora de uma personalidade difícil (acha quase todo mundo bobo), mandou-me uma mensagem assim: “Nem o papa aguentou!”.

Afinal, o que ele não teria aguentado? Peço licença à minha amiga nojenta para tomar sua exclamação e fazer um pouco de filosofia selvagem a partir dela. Antes, esclareço que não sofro do comum preconceito de pessoas inteligentinhas contra a Igreja Católica. Qual é esse preconceito? Hoje em dia, num mundo em que todo o mundo diz que não tem preconceito, o único preconceito aceito pelos inteligentinhos é contra a igreja: opressora, machista, medieval…

Estudei anos num colégio jesuíta. Graças aos padres aprendi a coragem intelectual, o gosto pelas letras, o valor da liberdade religiosa, o esforço de pensar de modo claro e distinto, o respeito pelas meninas, ao mesmo tempo em que crescíamos num ambiente no qual Eros nunca foi demonizado; enfim, só tenho coisas boas para dizer sobre meus anos de escola jesuíta.

Cresci numa escola na qual, durante a semana, discutíamos como um “mundo mau” pode ter sido criado por um Deus bom. No final de semana, íamos à praia todos juntos, dormíamos lá, meninos e meninas, em paz, namorando, e enchíamos a cara. Noutro final de semana, o mesmo grupo ia a favelas ajudar doentes. Tive, numa pequena amostra, uma prova do enorme papel civilizador da igreja e do cristianismo como um todo no mundo.

Dizer que a igreja padece de males humanos e que compartilhou de violência de todos os tipos é óbvio demais para valer a pena um minuto de reflexão. Em jargão teológico, essa “dupla personalidade de bem x mal” não é bipolaridade moral, mas uma dupla identidade: a igreja teria um corpo mundano (pecador como o de todo o mundo) e um corpo místico (voltado a Deus, à eternidade, inserido no mundo assim como Deus encarnou num homem, Jesus).

Portanto, não sou um desses ateuzinhos que, no fundo, não passam de “teenager” bravo porque o pai não existe. Parafraseando o grande Beckett, “God does not exist –that bastard!” (Deus não existe –aquele bastardo!).

Joseph Ratzinger (Bento 16) é um homem inteligente que quis levantar o nível do debate dentro da igreja e na sociedade como um todo. Um filósofo. Resistiu bravamente à contaminação por uma teologia populista e marqueteira, mas sucumbiu à ancestral vocação humana para a mentira e para a vida burocrática. Hoje, quase tudo no mundo é populista e marqueteiro; lembremos da máxima da grande escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís: hoje todo mundo quer agradar, até o metafísico.

Foi isso que o papa não aguentou: ele esbarrou no diagnóstico da contemporaneidade feito pela Agustina Bessa-Luís. Todo o mundo só quer agradar “seu eleitorado” e Bento 16 quis tratar seu eleitorado como gente grande. Resultado: angariou inimigos em toda parte porque rompeu o jogo comum de “falar muito e dizer nada”, típico da sensibilidade democrática em que vivemos e também da igreja na “sua base popular”.

Num mundo de sensibilidade democrática, ninguém quer saber de nada a sério. A “afetação infantil” (Bessa-Luís, de novo) nos define. O “povo é sempre lindo e certo!”. Na democracia, a soberania do governo emana do povo; daí que achar que o “povo é sempre lindo” é um efeito colateral deste modo da soberania. Logo, todo o mundo só quer agradar, e Bento 16 não quis agradar, quis falar a sério.

Sucumbiu às intrigas palacianas, à inércia da estupidez do mundo de ruídos e baladas metafísicas.

As pessoas odeiam quem quer falar a sério. Não querem mais um papa, e sim um consultor de sucesso espiritual e Ratzinger não tem vocação para isso. A maioria das pessoas quer apenas comprar, divertir-se, ter uma autoestima alta, gozar livremente, não sentir culpa alguma; enfim, ter uma vida moral de criança de dez anos de idade.

Nem o papa aguentou. Preferiu “fracassar como Sócrates” a vencer como um demagogo feliz. No início da quaresma (período em que devemos refletir sobre nossos demônios), denunciou com sua renúncia o mais velho demônio da igreja: a política.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 15.02.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI




** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 18/02/2013.

3 Respostas to ““Nem o papa aguentou!” (15.02.2013)”

  1. Belo artigo, ponde não só analisou a saída do papa como cutucou a população esquerdista atual.

  2. Muito bom e sensato. Parabéns. (Mestrinho)

  3. Niterói, 19 de fevereiro de 2013.  

    Caro Pondé,  

    Sou uma mulher que comete o sacrilégio de degustar palavras e idéias. Sou sua fã incondicional e por sua causa eu passei a ler a Folha nas segundas (coisa mais deliciosa!). Ontem tive o privilégio de, além do seu artigo – que está um primor -, deparar-me com “Liberdade dos Bispos” de Vinícius Mota e “Paradoxos da Renúncia” de Rubens Ricúpero. O “evangelho atraente” de Thomas Reese me soa capitalista demais. Mas não poderia ter tom diferente vindo de um americano. O Islã continua a crescer no mundo, no entanto, um líder “com cabeça de repolho” não me parece em nada atraente….   Melhor, em um sentido irônico qualquer que a palavra “melhor” possa ter para meu tipo de temperamento – por isso, talvez fosse melhor a palavra gosto, na direção de para o meu tempero -, foram os comentários de meu presidente José Simão na TV Cultura no domingo. Que tempero gostoso…   Continue gargalhando. Sua gargalhada, assim como os gritos de minha sobrinha, agora aos 3, fazem o mundo girar e driblar os asteróides. Mas mude os óculos, repito, se puder…  

    Beijos sinceros, Sheila Nunes  

    PS. Deve ser muito bom ter uma amiga nojenta. RsRsRs

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