A adúltera de Deus (03.12.2012)

The End of the Affair (1999)


O Deus de Israel sempre amou as adúlteras. Jesus também dispensou cuidados especiais para com elas, e para com as prostitutas, os ladrões e os desgraçados de todos os tipos. Deus parece não resistir à sinceridade do pecador, assim como a filosofia parece amar a verdade do melancólico.

Na Bíblia hebraica, Raquel, a segunda esposa de Jacó (depois chamado de Israel), por muitos anos uma mulher estéril e idólatra por raiva de Deus, enterrada fora do “cemitério da família” por ter sido uma vergonha para esta mesma família, será escolhida por Deus como consoladora do povo eleito no sofrimento. Raquel é a “mater misericordiae” do judaísmo. Quando Israel sofre, é o nome dela que deve ser lembrado. Deus ama as infelizes e as elege como suas conselheiras. Qual o segredo da infelicidade?

Não se trata de brincadeiras teológicas “progressistas” que erram achando que ninguém é pecador. A pastoral de hoje, vide as igrejas que crescem por toda parte (o judaísmo não escapa tampouco desse vício), cada vez mais se assemelha a grandes workshops de autoajuda ou treinamentos motivacionais. Nada menos cristão do que um Jesus consultor de sucesso. Ninguém quer ser pecador, só santo.

Mas aí reside o erro para com a teologia cristã mais sofisticada: nela, o grande pecador é o mais próximo do santo. A beleza da antropologia do cristianismo está neste sofisticado e denso vínculo dramatúrgico: quando o corpo se põe de joelhos, pelo peso do pecado, o espírito se ergue. Não se trata de dolorismo, mas, sim, da mais fina psicologia moral.

A santidade reside mais na alma do pecador do que na autoestima do “santinho”.

Aliás, devo dizer que minha crítica à religião é diametralmente oposta àquela de tradição epicurista ou marxista. Esta, grosso modo, critica a religião porque ela faz do homem um alienado covarde, e que se vende a Deus para ser um alienado feliz. Eu me alinho mais ao pensamento do teólogo Karl Barth (século 20), para quem a religião torna tudo um mistério maior e traz à tona um sofrimento maior, mas que, por isso mesmo, amplia a consciência de nossa condição humana. Sofro, por isso penso, e logo, existo.

Recuso as religiões institucionais não porque elas fazem do homem um medroso, alienando-o de sua felicidade e autonomia (como creem Epicuro e Marx), mas sim porque as religiões fazem do homem um feliz, alienando-o de sua própria agonia. Quando a religião vira marketing, é melhor caminhar só pelo vale das sombras.

Revi recentemente o maravilhoso “Fim de Caso” (filme de 1999, dirigido por Neil Jordan), com a deusa Julianne Moore e Ralph Fiennes. O filme é uma adaptação do romance de Graham Greene e narra a “sua conversão”. Trata-se de um fino tratado de teologia, melhor do que grande parte dos livros que afirmam sê-lo.

No filme, a compreensão da íntima relação entre pecado e graça é avassaladora. Nada mais forte do que a graça para iluminar a agonia do pecador para si mesmo: o santo não é um santinho. A personagem de Julianne Moore é uma adúltera, que ao longo do filme apresentará traços claros de santidade, chegando a realizar um milagre. A adúltera, infiel ao seu marido, destruidora da fé no casamento e no amor que organiza a vida e a sociedade, o tipo mais vil de mulher, é aquela que mais fundo toca Deus em sua paixão pela agonia humana. No cristianismo, Deus leva a agonia humana tão a sério que resolveu Ele mesmo passar por ela, na figura da Paixão de Cristo.

Um musical a estrear, baseado na obra de Victor Hugo (século 19), “Os Miseráveis“, com Hugh Jackman no papel de Jean Valjean, fugitivo da cadeia, e Russell Crowe no papel de seu perseguidor implacável Jabert, traz uma das maiores cenas da teologia cristã já representada na arte. Jean Valjean, após ter roubado os castiçais da casa de um padre, e ser pego pela polícia, é perdoado pelo padre que confirma para a polícia a mentira contada por Valjean: “Sim, eu dei os castiçais para ele”.

Este ato transforma Valjean. O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 03.12.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

 

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~ por Pathfinder em 03/12/2012.

5 Respostas to “A adúltera de Deus (03.12.2012)”

  1. CONTINUO AGRADECENDO POR SUA VIDA E SUAS PALAVRAS…
    UM GRANDE ABRAÇO, SUA EXISTÊNCIA ME FAZ FELIZ.

  2. No campo do cristianismo contemporâneo, a moda é medieval. Deus atende aos Felizes,”predestinados”. Palavra que fora substituída por “abençoados”. Eles o agradecem por sua vidas ao se compararem com os infelizes. Entretanto, para ter a fama de “bom cristão” é preciso sofrer, o que admite a agonia da alma mais os impostos do dízimo. Em busca da eterna recompensa de Deus, seja ela material, psíquica ou espiritual, que alivia ou intensifica as dores e as posses.

    Ótimo Texto, Pondé.
    GRANDE ABRAÇO! DE VOLTA REDONDA.

  3. Estou interessado em contato o Pondé para palestrar na Universidade que estudo. Tentei o email que está aqui no blog mas não tive resposta. Por acaso o blog sabe se há outro meio para contato e/ou outro email?

    • Evanderson, o email é este mesmo, o da Folha: ponde.folha@uol.com.br

      Se ele não respondeu, não deve ter visto o email. Provavelmente deve receber dezenas e não tem tempo de ler todos. Envie novamente colocando no “assunto” alguma coisa que chame a atenção dele. Seja direto e objetivo, assim ele perceberá seu email no meio do montante que recebe diariamente.

      Abraço

  4. O “ser escravo” está muito enraizado, viver a graça implica em ser livre e o homem não está preparado para a liberdade. Andar de joelhos, ficar dias sem comer alivia a dor do pecado justificando-o… Belo texto.

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