Farewell hope (26.11.2012)

Ilustração: Dushan Milic (recortada)

“So farewell hope and with hope, farewell fear. And farewell remorse! All good to me is lost; Evil, be though my good.” John Milton, “Paradise Lost”. (Então, adeus esperança e com a esperança, adeus medo. E adeus remorso! Todo o bem para mim está perdido; Mal, seja então meu bem).

Sim, enquanto existir esperança, não há paz. Segundo o poeta inglês John Milton (século 17), que narra nesse poema a agonia de Adão e Eva afundando na cegueira de quem não mais verá Deus, só perdendo a esperança perde-se o medo. Seria um preço muito alto a pagar? Junto com a perda do medo, a perda do remorso e do bem. Niilismo?

A esperança é tema nobre na teologia. Para os católicos, a esperança é uma virtude teologal, isto é, só se deve depositar a esperança em Deus e, por consequência, só Deus nos dá esperança como um dom. Não há esperança no mundo, na Criação. Entregue a si mesma, ela vaga no vazio do desespero, carregando em si a raça dos abandonados, como dizia Horkheimer. 

Felizes os que nasceram com o dom da esperança. Existe uma beleza no mundo que só os olhos daqueles que têm esperança veem. Eu, como nasci com uma alma cega, mui raramente a pressinto (como diria Santo Agostinho, séculos 4 e 5, o peso do pecado logo me traz de volta ao desespero), mas só a pressinto com a ajuda de alguém; por mim mesmo, me afogo no desespero. Só não me desespero mais porque sou uma alma concreta, salva pelas obrigações do cotidiano. 

Que os inteligentinhos não me cansem com a “crítica do pecado”. Hoje em dia, uma das faces da banalidade é falar mal de religião: mal informados de todas as idades acham que pecado é uma invenção para “oprimir o homem”, sim, assim como o espelho… 

É conhecida a passagem na qual Kafka, ao ser indagado sobre crer ou não que existiria alguma esperança, teria respondido: “Esperanças há muitas, mas não para nós”. A interpretação mais comum é a de que ele estaria condenando a modernidade e sua desumanização (a barata Gregor Samsa, em “Metamorfose”) como negação histórica da esperança, mas que nem por isso Kafka negaria toda e qualquer esperança. A conclusão dessa interpretação é que o pessimismo do autor seria “histórico”, mas não ontológico ou cosmológico (isto é, “passando” a modernidade, as coisas melhorariam…). 

Mas a teologia de Kafka, presente em seus “aforismas teológicos”, parece ser um pouco pior do que isso. Mesmo em sua ficção, Deus parece ser uma espécie de “senhor de uma colônia penal” (faço referência aqui à máquina de tortura e morte descrita no seu conto “Na Colônia Penal”), colônia penal esta que é nossa casa, poço de desencontros, nossa vida, poço de frustrações, nosso corpo, poço de patologias, enfim, um beco sem saída. 

O próprio materialismo como visão de mundo (modelo hegemônico na ciência e no ateísmo moderno, segundo o qual tudo é átomo e a vida é finita) é vivido por muitos como uma negação da esperança. Como ter esperança na solidão das pedras?

Um dos trechos mais sublimes na literatura, no qual o materialismo se revela em seu terror e seu mistério, é a passagem no romance “Patrimônio“, de Philip Roth (a história real do adoecimento e morte de seu pai), na qual ele vê as imagens do tumor no cérebro de seu pai, tumor que o mataria. Não por acaso, nessa cena Roth busca refúgio na famosa passagem na qual Hamlet segura nas mãos o crânio de Yorick, o bobo da corte, que o tinha carregado no colo tantas vezes, e se pergunta se é aquilo que somos, um crânio em meio a terra úmida.

Roth olha para aquele cérebro e pensa como “aquilo” poderia ser a causa eficiente de tudo que seu pai fizera, pensara e sentira. Fonte de cada palavra e cuidado que tivera com sua família.

Lembro-me bem de quando eu trabalhava no necrotério fazendo necropsias e colocava cérebros na mesa metálica. Milton, Shakespeare, Kafka, Roth e eu juntos, num plantão de sexta-feira à noite, a noite mais violenta, e por isso mesmo a melhor, se você quiser cadáveres “frescos” para aprender anatomia. Farewell hope.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 26.11.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 26/11/2012.

4 Respostas to “Farewell hope (26.11.2012)”

  1. Engraçado, mas consigo ver Pondé escrevendo este texto, bebendo vinho e fumando um dominicano (cubano jamais, ele odeia socialistas). Sorrindo a cada boa sacada de erudição que consegue transcrever; imaginando o brilho nos olhos do rebanho que o segue, ao ler coisas aparentemente profundas, mas rasas em essência.
    Angústia? Desespero? Isso é coisa de Nietzsche, Kafka, Schopenhauer; Pondé é comum. Não cria nada; é um angustiado da zona sul. Tem às mãos tudo que um verdadeiro burguês precisa pra atingir um público incauto e desprovido de auto crítica.
    Pondé é aquele cara que fica meia hora na frente do armário, escolhendo a roupa do dia, pra parecer aos olhos dos outros que pegou a primeira que viu na frente. É o descolado mais aderente da intelectualidade brasileira.
    Mas não se angustiem, eu também já fui do rebanho. Há sim esperança, ela nasce do senso crítico.

  2. Pondé fez com maestria um belo apanhado sobre a virtude teologal da esperança. Com a fé, ambas formam o binômio de virtudes primeiras que se plantam e bem se desenvolvem no fértil solo do psiquismo humano. Mas, teologicamente, a terceira, a virtude do Amor lhes é superior, de limitada e quase inócua ressonância em nossa psíquica faculdade biológica, por força, talvez, do aguilhão do antagonismo substantivo que nos guindou para a racionalidade adventícia, e que cede restrito campo ao amor.

    • Raquel, verve não é erudição, querida.
      Não use exageradamente a habilidade retórica para parecer profunda. Se tem conhecimento, exponha; se não, é melhor calar.
      Quanto tempo você gastou consultando dicionários virtuais para compor o texto? De tudo que você escreveu, isso é de fato o que me interessa.

    • Raquel… Puta que pariu! Você fumou algo, ou esse é seu estado “natural”?

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