O filósofo do martelo na academia (05.11.2012)



“Eu lamento agora que naqueles dias eu ainda não tinha coragem (ou imodéstia?) para permitir a mim mesmo, de todas as formas, minha própria língua individual…”


Estas palavras são de Friedrich Nietzsche (1844-1900), em tradução livre, do seu “Tentativa de Autocrítica”, opúsculo escrito por ele como autocrítica, em 1886, ao seu livro “Nascimento da Tragédia” (primeira edição em 1872). A edição de 1886 ganhou como acréscimo ao título o subtítulo “Helenismo e Pessimismo”.

Nietzsche foi minha primeira paixão na faculdade de filosofia da USP. Na época, recém-saído da medicina e em formação para ser psicanalista, o que nunca aconteceu, eu colocava em diálogo Nietzsche e Freud. O filósofo do martelo me é inesquecível e continuo pensando com o martelo até hoje. Vocação é destino. Este trecho específico carrega em si muito do que Nietzsche significa para um filósofo profissional como eu, em constante mal-estar com o que a vida universitária se transformou, em épocas de produtividade industrial do ensino superior.

A fala de Nietzsche vai de encontro ao modo como somos formados, não sem razão, nas boas faculdades de filosofia: somos formados para não sermos originais. Hoje, entendo que qualquer originalidade possível em filosofia é algo conquistado a duras penas, assim como a santidade ou os movimentos precisos de uma dança –metáfora cara ao filósofo do martelo.

Lembro-me de uma das primeiras aulas em que um dos grandes professores que tive nos disse algo assim: “Você não está aqui para achar nada, antes de achar algo estude, e descobrirá que muita gente já pensou o que você pensa, e muito melhor do que você, antes de você.” Esta dureza acaba por fazer de nós pessoas menos opinativas e mais rigorosas, e isso é sem dúvida fundamental. Esta é a diferença entre pensar filosoficamente e pensar como senso comum. Vale lembrar que do ponto de vista da filosofia, as ciências humanas em geral são senso comum.

Rigor nada tem a ver com o que a academia se tornou com o passar dos anos: um antro de política lobista e de burocracia da produtividade a serviço da morte do pensamento. A universidade está morta e só não sente o cheiro do cadáver quem tem vocação para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre nós, acadêmicos, nos colocaria com cara de ratos.

Imaginem Nietzsche preenchendo o currículo Lattes, uma plataforma informática que supostamente democratiza o acesso à produtividade da comunidade acadêmica, ao mesmo tempo em que normatiza e quantifica esta produtividade. Na prática, o Lattes serve para nos tomar tempo (sempre dá pau) e acumular platitudes e repetições que visam a quantificação de um quase nada de valor.

Agora imaginem Nietzsche às voltas com relatórios anuais da Capes, que junto com o Lattes, institucionaliza e quantifica esta mesma produtividade de um quase nada de valor. Não existiria filosofia se nossos patriarcas, de Platão a Nietzsche (para citar dois grandes), tivessem que preencher o Lattes, fazer relatórios Capes ou serem “produtivos”. Todos seriam o que, aos poucos, nos transformamos: burocratas mudos da própria irrelevância. Analfabetos do pensamento.

Uma das formas de sobreviver a este processo de produtividade de massa é obrigar nossos alunos a pesquisar aquilo que não querem, de uma forma que não querem, a fim de garantir verbas institucionais de pesquisa em grande escala. Esmagamos a criatividade e as intenções dos alunos fazendo deles uma infantaria estatística. A universidade mente: quer formar rebanhos dizendo que defende a liberdade de pensamento.

Lutamos dia a dia para conseguirmos sobreviver aos montes de formulários e demandas do mundo dos ratos. A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita “ideias modernas”. Os processos de democratização do saber, como suspeitava nosso filósofo, são processos de produção de nulidades em grandes quantidades.

Mais do que nunca é urgente sermos corajosos e imodestos para acharmos nossa própria língua individual.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 05.11.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 05/11/2012.

3 Respostas to “O filósofo do martelo na academia (05.11.2012)”

  1. É a tradução perfeita do fordismo acadêmico que vem se implantando nas universidades. Não podemos pensar para além da ABNT!

    Só acho que o pensamento de que as ciências humanas são senso comum é equivocada, pelo menos no que diz respeito às ciências sociais, forjadas pelas mãos artesãs do estranhamento e da desnaturalização.

  2. “Os processos de democratização do saber, como suspeitava nosso filósofo, são processos de produção de nulidades em grandes quantidades.”

    Isso é uma crítica velada à política de cotas nas universidades federais. Ocorre que o problema não está na “democratização do saber”, que é salutar, do ponto de vista humano e macro-econômico, numa sociedade; o problema está em como é fomentado este processo. Neste sentido é que discussão deve ser proposta.
    Todo ser humano possui potencialidades que, a despeito de sua origem, podem ser transformadas em força produtiva; nas mais diversas áreas do conhecimento.

  3. Olá Ponde.
    Eu assisti a sua entrevista no programa Roda Viva que foi ao ar em 2011 e, sem querer ser inconveniente, gostaria de saber se você alterou alguma de suas opiniões, pois de acordo com alguns artigos mais recentes acredito que alguma coisa alguma coisa mudou.
    Abraços.

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