A Idiota de Deus (09/07/2012)



Meus leitores sabem o quanto abomino aeroportos. Criei mesmo a expressão “churrasco na laje” para descrever essa sensação de que somos atropelados por uma mistura de música brega e pessoas mal-educadas. Não se trata de preconceito (no sentido banal que a palavra ganhou depois de virar chiclete com banana na boca de todo mundo) porque não acho que as pessoas não sabem se comportar nos aeroportos porque são de classe social ou cor específicas. Trata-se apenas de falta de educação.

Voltando de um compromisso profissional fora de São Paulo, me encontrei num aeroporto de uma cidade em que as pessoas ainda têm o hábito de ir aos domingos assistir avião subir e descer. O aeroporto em questão tem mesmo um espaço dedicado a “vista panorâmica” da pista de pouso e decolagem. Que horror.

Só pessoas loucas viajam por vontade própria. As normais o fazem por obrigação. Penso mesmo que em alguns anos aeroportos serão os piores lugares para você ser visto, assim como ser visto algemado numa delegacia de polícia. Uma vergonha.

Proponho que as autoridades (vamos “evoluir” nesta direção) proíbam todos, salvo os passageiros, de entrarem no aeroporto. O mesmo tipo de atitude solene e silenciosa dos hospitais deveria ser cobrada nos aeroportos.

Estava eu, então, estoicamente suportando os berros das crianças que lá estavam vendo os aviões, com seus pais que nunca entendem que berros de crianças são apenas berros de crianças e não manifestações sagradas de seus pequenos deuses.

Em meio a isso, bárbaros batendo fotos de si mesmos na frente dos portões de embarque com suas dez malas e funcionárias das empresas aéreas descabeladas justificando o injustificável overbooking.

De repente paro em frente a um balcão desses cafés, sem saber exatamente o que fazer, já que teria que esperar naquele pequeno pedaço de inferno por duas horas. Então, uma jovem garçonete sorriu pra mim. Com seu uniforme amassado, seu rosto cansado, seu corpo pequeno, ela parecia um anjo caído do céu no corpo de uma pequena e pobre princesa africana.

O mundo parou. Seu sorriso e sua generosidade suspenderam o mecanismo infernal do lugar.

Ela me pergunta o que eu quero. Não respondo porque não sabia se queria alguma coisa. Ela então me puxa pela mão e me mostra uma mesa vazia, sem cadeiras, num canto minimamente longe do inferno. Põe-se a limpar a mesa, busca uma cadeira e me dá um cardápio na mão. Volta alguns segundos depois e anota meu pedido.

Nos minutos que se seguem, enquanto tomo um café, acompanho seus movimentos delicados e ágeis, ouvindo, anotando pedidos, limpando mesas. De vez em quando se volta para mim, e repete seu sorriso aberto e generoso. O contraste da cor da sua pele com a cor dos seus dentes produzia uma beleza peculiar. De onde vem tamanha doçura?

Meu Deus, quanta doçura num pequeno corpo como aquele que corre de um lado para o outro, servindo tanta gente, como eu, sem doçura alguma.

Deve ter sido sensações como essas que levou Joaquim Nabuco, o grande pensador conservador brasileiro, a ver o horror que era a escravidão, e lançar a campanha abolicionista. Ainda que no famoso caso dificilmente Joaquim Nabuco estivesse contemplando um sorriso.

Como ele, sou pernambucano. Venho de uma terra onde as diferenças sociais são vistas como marcas da natureza, como montanhas, vales e pragas. Não sou dado a arroubos políticos, sou um niilista e cético. Sou versado em dialética materialista, psicanálise, mercantilização da vida e nos sete pecados capitais. Não tenho esperança alguma.

Por isso mesmo, sempre que percebo a generosidade no mundo, fico paralisado. O mundo cai no silêncio como se ali estivesse Deus em pessoa, cobrindo a precariedade humana com sua misericórdia.

Quando o espírito humano se ergue, o corpo cai de joelhos, dizia o saudoso Otto Maria Carpeaux citando algum luminar alemão.

Antes de eu embarcar, ela me disse: “Deus te abençoe”.

Fosse eu um Dostoiévski, diria que fui visitado por uma “idiota de Deus”, aquele tipo que ele tinha em mente quando disse que a beleza salvaria o mundo.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 09.07.2012)  | Outra fonte para este artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 12/07/2012.

8 Respostas to “A Idiota de Deus (09/07/2012)”

  1. Tive a felicidade de ler este artigo na segunda. O POndé tem essas tiradas fantásticas de nos fazer rir sem gargalhar e de nos fazer ensaiar um sorriso meio amargo no canto da boca – rimos de nossas próprias desgraças e às vezes, até choramos.
    Tenho estado chorona e este artigo em faz chorar porque percebo que toda a história da humanidade, toda a formação acadêmica, habilidades, técnicas, acesso a facilidades ou nao, sempre em algum momento nos leva de volta ao que somos: seres humanos frágeis e carentes de carinho,
    de atenção, de um sorriso.
    Neste momento, me olho no espelho e vejo uma pessoa tão brutalizada pelo dia-a-dia, pelo trânsito, pelas cobranças da chefe mal-amada, que nego a ela e ao próximo qualquer demonstração de doçura.
    Bom dia!
    Sheila Nunes

  2. Se vc fôsse mais generoso com a realidade, quem sabe seria mais feliz?! Vc é muito amargo, a intelectualidade não é tudo!

  3. Agora pergunto: Porque generosidade da moça que trabalha no estabelecimento do aeroporto? Apenas porque divide um sorriso e um suposto ar de “solidariedade”? Ela trabalha em uma empresa onde o “bom humor e bom atendimento” a faz mais requisitada e aceita no mundo comercial.

    Achei que no ponto de vista da mulher, Pondé ficou “cego de amor” rsrs
    a ponto de ser tão pessimista social e ver uma mulher que sorri mas que participa da mesma forma que ele e todos nós nessa sociedade voltada pra desumanidade.

    O contraste não gera só o “impressionismo” mas sim a ilusão. Ela sorria porque fazia parte do seu trabalho e como todo mundo é agarrado pela paixão, Pondé teve seu momento de “cego” assim como uma pseudo-idiota de Deus, rsrs 🙂

    • Discordo de seu ponto de vista. Quem frequenta com assiduidade aeroportos e suas cafeterias, como é o meu caso, sabe muito bem que a maioria desses locais NÃO PRIMA pela excelência no atendimento. Muito pelo contrário! Na verdade, nem precisamos ir até aeroportos. Dentro das grandes cidades, há redes conhecidas de cafeterias e lanchonetes que se tornaram até famosas pelo péssimo atendimento com que seus funcionários recebem os clientes. Não vou citar nomes, pois quem mora em São Paulo, por exemplo, provavelmente conhece pelo menos uma dessas redes.A regra não é o sorriso e o bom atendimento visando atrair clientes. A maioria dos funcionários está sempre com fisionomia cansada ou, o que é pior, de mau humor, e dificilmente se prestam a sorrir para os clientes. Sorriso é artigo de luxo!

      Pelos textos do Pondé, sem conhecê-lo pessoalmente, acho improvável que seja o tipo de pessoa que se “derrete” assim tão facilmente porque uma garçonete sorriu para ele. O filósofo chegou a chamar os aeroportos de “churrasco na laje”, meu caro Paulo!!! Embora ele explique a razão desse apelido, podemos perceber que não é dado ao convívio com multidões. Em um dia como esse, cansado e de saco cheio por ter de esperar duas horas pelo vôo, em um aeroporto cheio de turistas e crianças berrando, o mais provável é que o mau humor não desse muito espaço para “simpatias” fáceis.

      Outra coisa é essa sua opinião de que TODAS as pessoas funcionam nessa chave de “utilidade” das ações e relações em benefício do comércio. Uma visão BEM MATERIALISTA a sua, não? Pode ser que a maioria esteja mesmo mergulhada nessa aridez interna que você descreve, vivendo e se relacionando apenas em termos de “mercado”. Uma visão bem foucaultiana, me parece. Tudo é mercado e política? Bem, não concordo, mas mesmo que seja essa a “regra”, não quer dizer que não existam exceções e que o Pondé não tenha topado com uma delas! E também não quer dizer que o homem não tenha capacidade para discernir entre uma e outra, só porque você não acredita que uma funcionária de cafeteria seria capaz de um comportamento verdadeiramente gentil, sem segundas intenções implícitas.

      Em minha opinião, foi JUSTAMENTE POR TER ENCONTRADO UMA EXCEÇÃO que Pondé percebeu o contraste e foi “tocado” pela gentileza da moça. Ainda há pessoas gentis no mundo, meu caro, que não visam apenas “resultados mercadológicos” com suas atitudes. Se você nunca encontrou com uma e não acredita que existam, acho uma pena! 😉

      • Sério, eu ri muito com o seu comentário. Assim como eu que só fiz uma suposição do que ele “sentiu” ou se “iludiu”, você também fez uma suposição dizendo que eu nunca encontrei uma pessoa verdadeiramente gentil ou que penso como um materialista.. você só leu um comentário meu e já veio falando até do meu ego profundamente como uma Deusa onipresente? hahaha, sério, eu me senti tocado por uma divindade.

        Mas voltando ao assunto (o qual a gente nunca deveria ter saído) do sistema que a gente participa hoje, o fato dela trabalhar sorrindo a faz mais qualificada que os outros, ela sendo (supostamente) gentil ou não, a faz mais requisitada. Supostamente ela quer mesmo persuadir qualquer um, ingênuo ou não, a acreditar que ela está feliz, aceptível e contente. Não estou sendo materialista de forma alguma. O fato do Pondé ser uma pessoa que por escrever textos no qual você conhece muito bem não o desqualificaria de poder se apaixonar pela beleza de uma mulher, ele também é um ser humano, ele age através da natureza também, o que ele escreve não o faz aquilo que ele criou todo o tempo e toda hora (assim como eu, certo?)

        Assim como sua suposição de que “Pelos textos do Pondé, sem conhecê-lo pessoalmente, acho improvável que seja o tipo de pessoa que se “derrete” assim tão facilmente porque uma garçonete sorriu para ele.” Existe também a minha suposição de que mesmo eu não o conhecendo pessoalmente, ele possa ter passado por essa confusão HUMANA, que todo HUMANO sente, de ser seduzido por uma pessoa atraente, sendo o Pondé que seja, ele passa pelas mesmas fases naturais de um ser humano.

        Eu não concordo com a forma de marketing material na qual nós vivemos hoje em dia, não acho bonito, mas isso existe, é um fato, quando eu acredito que isso exista não é pelo fato de concordar com que isso exista. Acreditar que alguém no meio dessa multidão materialista e robótica seja realmente feliz e gentil de vero é ingenuidade, o que TODO MUNDO é. Pondé sendo o pseudo-gênio que é (e eu o admiro muito) também pode ser ingênuo de acreditar em uma mulher de “boa aparência”. Ficou claro? 😉

  4. Pondé, poderia ser uma rodoviária e ao invés de “uma idiota de Deus” um “mal humorado do capeta”, heheheh…. Lembra do Maluf e sua frase célebre do estupro….

  5. Por isso que gosto de crianças. Tudo bem que seja fácil para elas serem doces, incorporando bondades divinas. Mas te olham com interesse, mesmo que por 3 segundos até a próxima distracao.

    A verdade é que a idade vai amargando e amalgando a gente. Sou confrontada com isso todos os dias de minha vida na Teutolândia, onde velhos doídos de guerras, amansados por welfare, e isolados por individualismo se arrastam por toda parte, dificultando a vida pros idiotas de Deus.

    Lembrei de Gonzaguinha agora.

  6. Esse cara é inteligente, gosto muito do que ele escreve mas esse comentário do aeroporto… Ele precisa frequentar as rodoviárias. Vou amar ler o seu sentimento em referência.

Comentários encerrados.

 
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