Pondé e a coragem de escrever (10.05.2011)


Fonte: MAIS CRUZEIRO (originalmente publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página 1 do caderno C)



Por José Antônio Rosa (joseantonio.rosa@jcruzeiro.com.br)


Ao ser questionado, no ano passado, sobre os limites que o humor estaria obrigado a respeitar, Paulo Bonfá, apresentador do programa Rock Gol da MTV, reportou-se ao discurso politicamente correto e respondeu que os artistas sentem-se, hoje, menos à vontade para se expressar. E exemplificou: “Não podemos mais falar a palavra saci; agora, para se referir a ele, dizemos que se trata de um afrodescendente portador de necessidades especiais“. A esse fenômeno que inibe e limita o senso criativo o filósofo Luiz Felipe Pondé, deu o nome de “patrulhamento ideológico do bem”, ou “censura da inteligência”.

Para falar a respeito desse e de outros assuntos, Pondé esteve em Sorocaba, na Oficina Cultural Grande Otelo. “Como escrever sem Medo no Mundo Contemporâneo? Filosofia e Literatura a Serviço da Coragem” era o título de sua palestra e nela Pondé discutiu questões como o uso da linguagem e as restrições ao pensamento público. Entrevistado pelo Mais Cruzeiro, recomendou “prudência” aos que se utilizam da escrita como ferramenta de trabalho.

Ele admite que não existe meio termo e que a linha que separa a liberdade de expressão do risco de ferir suscetibilidades é muito tênue. Outra forma de fazer frente ao problema é se valer da “coragem intelectual”. Em tempos de evolução tecnológica, de reconhecimento pela Justiça da união entre pessoas do mesmo sexo e de avanço nas conquistas do movimento negro, Pondé acredita que é mesmo difícil tratar de tais temas sem flertar com a polêmica. A proposta da palestra é falar das formas de evitar o “medo das patrulhas do bem” e sobre como a coragem continua sendo a principal virtude da inteligência pública, da Grécia até os dias atuais. Confira, aqui, trechos da conversa com a reportagem:


>> O medo teria sido incorporado ao ato de se expressar?

Existe, sim, um certo medo quando se escreve publicamente, mas acredito que isso seja mais uma constatação de ordem técnica. É preciso saber de onde vem a informação, ou o texto, a quem se destina, e como é recebido. As pessoas, afinal, lêem, assimilam e recebem, se quiserem. Isso, no entanto, não afasta o patrulhamento das ideias. O mundo é perigoso e não convém descuidar da figura do leitor, do ouvinte, do telespectador, sob pena de o seu produto não ser consumido. O medo está aí, inclusive, em função dos desdobramentos no plano jurídico. Eu costumo dizer que existem vários níveis de medo que precisam ser trabalhados.

>> Mas, como trabalhar o medo? Parece não haver um meio termo para se expressar, sem correr o risco de praticar ato ofensivo, ou ser politicamente incorreto…

Não existe, mesmo, meio termo. Ou melhor, tudo é descentrado, envolve um cuidado casuístico. Falar, escrever, se expressar publicamente é flertar com a polêmica. Às vezes, somos obrigados a jogar duro nesse exercício. A linha que separa um terreno do outro é muito tênue, mas deve-se usar de prudência. Pensar cuidadosamente é a melhor forma de trabalhar esse sentimento. Outra, é não perder de vista a importância do debate público a respeito.

>> Parece não haver diferença entre medo e auto-censura…

Há, sim. A auto-censura é um desdobramento do medo. Não são, portanto, a mesma coisa. O medo pode levar, necessariamente, à auto-censura. É o que acontece quando ficamos diante do impasse, de não saber o que e como dizer. É quando tudo paralisa, bloqueia. Aí, sem outra alternativa, não fazemos, praticamos a auto-censura.

>> O Brasil vive um momento pródigo em notícias. Recentemente, o STF reconheceu a legalidade da união entre pessoas do mesmo sexo, o movimento negro alcançou algumas conquistas, caso das cotas, fala-se de assédio moral, de bullyng, de pessoas portadoras de necessidades especiais. Como escrever, falar, sobre esses temas sem resvalar no politicamente incorreto?

É difícil. São temas cifrados. Eu, por exemplo, sou contra a política de cotas, mas a favor do casamento gay. As nuances do debate público são tantas, que é preciso saber abordar cada um desses e muitos outros assuntos sem ferir suscetibilidades. É necessário coragem intelectual para produzir, desprendimento e conhecimento de causa.

>> Por que o medo de se expressar ganhou força mais recentemente? O fenômeno estaria relacionado à evolução tecnológica e dos costumes?

A priori, esse medo sempre existiu. Não raramente romantiza-se a inquisição, ou as posturas fascistas e atribui-se a esses movimentos a responsabilidade pelo medo. Hoje, no entanto, com a internet, as redes sociais, os blogs, as informações circulam com uma rapidez incrível, e chegam a uma gama de pessoas maior ainda. O jornalista vive sob pressão e tem de dar conta da demanda de produzir a informação na mesma velocidade, sem perder de vista a qualidade do conteúdo. E, até por causa da subjetividade, acontece de determinada notícia, informação ser interpretada como ofensiva, agressiva. Logo, o medo tem uma característica de atemporalidade.

>> O que sobra, então, para quem escreve? Usar um dicionário de expressões politicamente corretas?

Essa ideia é perfeitamente factível. Aliás, já existe um dicionário assim. Pouco antes de morrer, o Paulo Francis, que foi um jornalista com quem aprendi muito, escreveu um texto prevendo que as redações iriam se transformar numa espécie de celeiro de comissários do povo. Ele chamava assim aqueles que viriam imprimir a censura jornalística, ou que escreveriam com base em alguns pressupostos, que se sentiriam engessados e amordaçados em nome da patrulha do bem. Aqueles que, no exercício da profissão, pisariam em ovos. Não se pode, portanto, reduzir a importância do debate público. O que fica disso, é que precisamos levar em conta o pensamento, a vontade do receptor, aqueles para quem se produz a informação. O interesse maior desse público é o que deve preponderar e ser respeitado.


Anúncios

~ por Pathfinder em 11/06/2012.

2 Respostas to “Pondé e a coragem de escrever (10.05.2011)”

  1. Caro Pondé,
    Estive refletindo sobre uma frase sua a respeito de preconceito.Você diz que preconceito é uma reação moral espontânea ao estranho.Concordo totalmente,mas depois de refletir quanto a isso cheguei à conclusão que preconceito também é uma reação moral inevitável ao conhecido,porque quando você conhece alguém,uma idéia,uma crença,uma filosofia,um sofrimento ou trauma qualquer,ou qualquer outra coisa que profundamente te desagrade você acaba inevitavelmente criando um bloqueio psicológico contra,causando enfim uma reação moral inevitável ao conhecido.E acredito que quando você já conhece e sabe como aquilo de fato é,você com certeza se torna preconceituoso tendo como base uma experiência já vivida.
    Tudo de bom pra você Pondé.

    • Muito boa a sua reflexão, Antonio Edson. Obrigado por comentar a entrevista.

      Abraço, Eq. Pathfinder

Comentários encerrados.

 
%d blogueiros gostam disto: