Pondé em entrevista à Livraria da Folha

Fonte: Livraria da Folha (10/05/2012)



Vista como única ou dividida em quatro cardeais — justiça, temperança, coragem e prudência –, na antiguidade, os estoicos argumentavam que a virtude era o bem supremo. A ideia contrariava outras escolas da mesma época, estas defendiam que a felicidade era o sumo bem. O estoicismo condenava comportamentos opostos, ou os vícios, como a covardia. Aqui, Luiz Felipe Pondé concorda com a ética estoica, e é difícil vê-lo concordar com alguma coisa.

Quem acompanha os textos de Pondé percebe o seu descontentamento com os covardes. É um assunto recorrente. Pode ser visto em Contra um Mundo Melhor, Guia Politicamente Incorreto da Filosofia e no posfácio de Diário da Corte.

No Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (podcast), o autor e colunista do jornal FSP inicia o processo de escalada do politicamente correto com a história do general Patton e o soldado covarde, encontro imortalizado no filme Patton: Rebelde ou Herói? (1970).

Em entrevista à Livraria da Folha, Pondé — que se prepara para lançar Por Que Virei à Direita, escrito em parceria com Denis Rosenfield e João Pereira Coutinho — falou sobre as vicissitudes humanas, a indústria dos transtornos psicológicos e o niilismo chique.


*******


Livraria da Folha: Como um estoico, você costuma criticar a covardia. Seria ela a pior das vicissitudes?

PONDÉ: Acho que sim, sempre se soube disso.

Livraria da Folha: No século 21, os estoicos seriam considerados politicamente incorretos?

PONDÉ: Com certeza, quase toda a filosofia seria. Os estoicos seriam também, seriam vistos como depressivos, resignados e “antifelicidade”.

Livraria da Folha: Um governo nos moldes de “A República”, de Platão, seria mais eficiente que a democracia de hoje?

PONDÉ: Não, não sou contra a democracia, acho-a o menos pior dos sistemas, mas acho que as críticas à vocação sofista da democracia, que na Grécia já se sabia, é um fato. O que acho risível é o culto da ideia que tudo pode ser democrático, até o Corinthians, isso é um modo, como na educação, de se esquivar da autoridade.

Livraria da Folha: Você inicia a escalada do politicamente correto com o exemplo do general Patton e do soldado com problemas nervosos. Esse também é o começo da indústria dos transtornos psicológicos?

PONDÉ: Interessante questão. Recomendo a leitura do “ Therapy Culture“, de Frank Furedi. Acho que a indústria da terapia é mais tardia. Como mostra Furedi em seus estudos empíricos, é a partir da década de 1990 que, pelo menos na mídia impressa em língua inglesa, termos típicos dessa indústria da terapia, como estresse, autoestima, etc. começam a aparecer em alta frequência estatística, revelando o grau de “terapeutismo” de nossa cultura, mas isso nada tem de contra as terapias em si.

Livraria da Folha: A psicologia está se mesclando com a autoajuda? Como você analisa essa relação?

PONDÉ: Sim, mercantilizarão de produtos baratos, assim como comer miojo sozinho em casa no lugar de comida.

Livraria da Folha: Em outra conversa, você criticou o que nomeou de “budismo de boutique“. Esse comportamento religioso seria um reflexo de uma crise no cristianismo? Se sim, como explicar o crescimento das religiões pentecostais no Brasil?

PONDÉNão crise do cristianismo em si, mas dos modelos mais tradicionais. O neopentecostalismo brasileiro é um híbrido de umbanda com cristianismo.

Livraria da Folha: Também existe um niilismo de boutique?

PONDÉ: Sim, niilismo chique é o que não falta… sempre foi chique ser melancólico.


Anúncios

~ por Pathfinder em 10/06/2012.

 
%d blogueiros gostam disto: