A Traição da Psicologia Social (14/05/2012)



Olha que pérola para começar sua semana: Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna — muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento –, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias“. William Shakespeare, “Rei Lear”, ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o “ser humano é uma construção social”, e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele…

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: “Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!”.

Mas até aí, este pecado de fazer bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do “bem”), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo “desta forma” porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é “construído” socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta “construção social do sujeito” está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às “esferas celestes” como responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico “Life at The Bottom: The Worldview that Makes the Underclass“, editora Ivan R. Dee, Chicago (A Vida de Baixo: A Visão de Mundo da Classe Baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 14.05.2012) 

Fonte original deste artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 16/05/2012.

3 Respostas to “A Traição da Psicologia Social (14/05/2012)”

  1. Admiro o discernimento e a desenvoltura com que Pondé aborda essas questões. É, parece que os tentáculos do “politicamente correto” invadem sorrateiros os campos do saber.

  2. Não sou uma defensora ferrenha e cega de que somos totalmente responsáveis por nossas ações, ignorando qualquer influência do meio e das circunstâncias, mas temos que convir que essa ladainha imposta pelos ingênuos defensores de uma benigidade humana suprema – a crença do “bom selvagem corrompido pela sociedade” – transforma o indíviduo em um mero fantoche resignado a forças que se situam num plano superior e intocável: ora, a sociedade, ora a cultura, ora o sistema, ora a religião. É muito fácil sair pela tangente justificando qualquer fenômeno social sob o discurso pseudo-científico e irracional de que somos “construções sociais”. Como se os indivíduos fossem uma legião de vitimizados sonâmbulos inconscientes vagando por uma terra onde a sociedade perversa exerce controle até nas micro-esferas. É hora de aprendermos a reconhecer a ambivalência humana, ou senão ficaremos eternamente nos escondendo na sombra de discursos superficiais que transformam qualquer problema complexo em mera questão de “construção social”. Aceitar essa irracionalidade como explicação para tudo é banalizar o mal e transformar o ser humano em uma peça comandada por forças obscuras. Influências existem, sim, aos montes, e são elas que constroem o indivíduo, mas existe uma série de referências que podem ser ponderadas pelo indivíduo. Não é possível que o absurdo possa ser justificado com o simples fato de sermos influenciados, como se não houvesse um critério mínimo de valores que pairasse acima de tais influências. O determinismo puro é tão ignorante quanto dizer nossas ações são totalmente livres. Possuir meios materiais suficientes para uma boa formação cultural e moral não quer dizer necessariamente que a boa índole venha a existir. Do mesmo modo que nascer em um ambiente pobre em recursos e educação gere, com toda a certeza, a criminalidade. É claro que as chances são imensamente maiores, mas justificar qualquer ato imoral com a figura incontestável da pobreza, ou, no sentido inverso, dizer que possuir meios materiais é o suficiente para se ter uma boa formação moral, é querer identificar em tudo um culpado por todas as mazelas sociais e uma vítima, para ser martirizada e, assim, ter seus pecados purificados por sua própria impotência.
    Porém, acho que, no sentido inverso, condenar moralmente (e judicialmente) o indivíduo por algo, como alguém que subtrai um objeto de outrem, apontando como uma imoralidade sem tamanhos e desconsiderando sua posição social, circunstancias e o valor do objeto furtado é igualmente imbecil. Sem vitimizações nem transformações em bode expiatório. Nao podemos ignorar o quão discrepante é a realidade da maioria dos brasileiros que vivem em situação de pobreza no Brasil.

  3. Muito bom!!!

Comentários encerrados.

 
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