Pondé e o narcisismo no “Face” (16/04/2012)


Cuidado! Quem tem muitos amigos no “Face” pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.

Faço parte do que o jornal britânico The Guardian chama de “social media sceptics” (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado “sombrio” do Facebook (17/3/2012).

Ser um “social media sceptic” significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na “história”, sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.

As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.

E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.

Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico “A Cultura do Narcisismo”, um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.

Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o “outro”, apenas exigindo do mundo um amor incondicional.

Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, “um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros” marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no “Face”.

A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no “Face”. Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços “tóxicos” (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no “Face” a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.

Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.

Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso…), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma…), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.

Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.

O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de “amigos” irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do “Face”.

Portanto, a “culpa” não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal “matéria” da escola.

A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 16.04.2012) 

Fonte original deste artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 30/04/2012.

5 Respostas to “Pondé e o narcisismo no “Face” (16/04/2012)”

  1. Legal, vou postar no Face kkkkkkkkkkkkk

  2. Excelente artigo, já refleti sobre o assunto e observei isto a medida que utilizei o Face e outras redes ditas sociais.
    Todos desesperados para dizer algo inteligente porém falso, angústiados que estão por reconhecimento de sua pseudo intelectualidade, é absurdo notar que estas pessoas não vivem a “verdades que escrevem” é hilario.
    Um forte abraço de reconhecimento deste artigo como uma sintese de meu pensamento.

  3. Esta semana decidi que nao frequentaria mais o facebook. Apos ler seu artigo, que e brilhante, entendi minha sensacao. Vou utilizar a rede social para que me encontrem caso queiram falar comigo….nao quero mais ler as carencias, nao quero ver o que as pessoas estao comendo ou bebendo, ou por onde estao viajando. Vou tirar todas as fotos postadas….o face vai ser para mim um anuncio nas paginas amarelas.

  4. Gostei muito do artigo e, até me identifiquei com coisas de meu passado em outras redes sociais. Vejo muito disso no “face”, o qual uso para me comunicar com pessoas que praticamente não vejo mais. É deprimente ter que se deparar com os “vomitos” como você mesmo diz, que as pessoas postam, toda vez que acesso tal feramenta.
    Ps: Gostei muito de seu livro ” Guia politicamente correto da filosofia”.

  5. Putz, Rede Social é essa coisa inútil mesmo, como descrito no texto. Mas que jogue a primeira pedra quem nunca se interessou por 1 banalidade nessa vida. Recentemente ouvi que o mundo está se tornando uma única tribo novamente, logo sentiremos na pele a chatice dessa nova ordem social. E a culpa é nossa mesmo quem são os incapazes de dosar esforços para o mundo real e para o virtual. Não concordo que quem tem muitos amigos no Facebook seja psicótico na generalidade; muitos desses contatos podem sim ser oriundos de reuniões de grupo sobre determinado tema em que estivemos presente. E pessoas adultas têm boa memória e sabem usar essa ferramenta (o contato) para entrar em contato quando necessário – como um acordo; parece meio oportunista e frio, não. Mas esse é o mundo dos adultos, nosso sistema de dar e receber, de fazer negócios, de prodizir bens – mesmo que subjetivo como as ideias. São relações superficiais, mas com alto potencial para se consolidar para o bom ou para o ruim. Enfim, ela deve ser uma extensão da vida real que vivemos e não o contrário. Sem ceticismos, sem exageros, sem superexposição…. Uma compilação do que produzimos de melhor durante a vida.

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