A favor do Sabor (14.03.2012)


Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo.

Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o “totalitarismo do bem”.

“Mas a saúde é um bem público!”, dirá o clero dos limpinhos. Mas, contra o que pensa o senso comum, em saúde, se você deixar de gastar dinheiro com X, você gastará com Y. Sabe-se que em medicina, fora acidentes de carro e semelhantes, se você não morrer de doenças metabólicas ou cardiovasculares, você morrerá de câncer. Evite a forma de câncer que você quiser, enfim.

A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a “vida cientificamente saudável” sempre foi uma das suas maiores paixões.

E, aqui, o advérbio “cientificamente” é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta.

Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo “correto” de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente “saudável” é um mundo sem Eros.

O filósofo Nietzsche já dizia que, depois da morte de Deus, o ressentimento dos covardes iria buscar aconchego na ciência — e, por que não, na saúde? O escritor inglês Aldous Huxley, autor da distopia “Admirável Mundo Novo“, via na obsessão totalitária do utilitarismo (escola ética que definia o bem como bem-estar da maioria) a tragédia da liberdade.

Em sua maravilhosa descrição de um futuro maníaco por saúde e felicidade, Huxley diagnostica a grande e insuspeita vítima do novo totalitarismo do bem: a morte da liberdade em nome da felicidade limpinha do mundo.

O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas.


LUIZ FELIPE PONDÉ (jornal FSP – 14.03.2012) 

Fontes do artigo: TUDO FARMA  SINCOFARMA


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 20/03/2012.

5 Respostas to “A favor do Sabor (14.03.2012)”

  1. Olá,
    Estou ruminando esse artigo desde que vocês me enviaram, mas ainda não consegui resolver uma equação. Peço ajuda.
    Como deve ser sexo entre os higiênicos? Estou há dias tentando imaginar, mas nem uma pista.

  2. É bastante desonesto creditar a mania de limpeza aos governos! A publicidade tem muito mais a dizer a respeito, como a imagem do post confirma. Mas, vindo do Pondé, a gente nem se surpreende…

    • Acredito que Pondé está pensando em exemplos históricos desse fato, como por exemplo o governo nazista, que começou com outro nome quando Hitler subiu ao poder em 1933, se você conhece um pouco a história da Alemanha. Um dos lemas de seu partido político visava a higiene, a limpeza da sociedade, a pureza racial. E a “publicidade” ajudou nisso sim. Aliás, muito do que se aplicou em termos de publicidade (teorias), decádas depois da segunda guerra, foi praticamente “imaginado” pelo governo nazista, digamos assim. Penso que é disso que Pondé está falando no fundo, de um totalitarismo que se instala no seio da democracia, e começa não só com uma ditadura de opinião como com a ideia de higiene, limpeza, SAÚDE

      Por isso ele cita justamente o livro de Huxley, “Admirável Mundo Novo”, no qual a imagem do post é baseada. A parte inferior da imagem, os ovos sangrando, fazem parte de uma das capas desse livro com edição em inglês. E, nesse caso, a imagem representa a ideia oposta, do “admirável mundo” vislumbrado por Huxley, que nada tem de belo, muito pelo contrário.

  3. Espero que o Pondé seja coerente para com a legalização das drogas.
    Já que: ”O governo deveria deixar as pessoas sentirem o gosto que quiserem em suas bocas.” Concordo plenamente com ele, mas será que o seu conservadorismo deixa?

  4. Boa pergunta, Vinícius, também gostaria de saber. Acho que, provavelmente, ele daria uma resposta bem esotérica pra fugir da questão e depois chamaria de burro quem não entendeu. A típica “estratégia ponderiana”.

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