Paraíso (21/02/2012)


Espero que São Paulo jamais ceda, como a Bahia, ao ruído ensurdecedor dos “gritos de Carnaval”.



CRESCI NA Bahia. Tenho saudades da Bahia, mas nem de tudo. A Bahia é a terra do Carnaval. Odiei cada Carnaval quando lá morava. Na época, minha família fugia pra Itapoã, nos anos 70, ainda uma terra virgem. Pra respirar, era necessário fugir da “civilização da alegria”.

A cidade fechava-se num ruído contínuo. Sem ar.

A devastação da vida pela alegria totalitária do Carnaval, desde pequeno, me ensinou a desconfiar das pessoas que amam festas e formas de felicidade coletiva. Meu gosto musical foi negativamente formado pela invasão dos “gritos de Carnaval”.

E o fedor desta felicidade coletiva e destes “gritos” invadia mesmo a vida daqueles que, como eu, preferia Dostoiévski ao trio elétrico. Entre o calor do verão baiano, suado e festivo, e o frio da Moscou literária, eu preferia a timidez recatada da prostituta Sônia de “Crime e Castigo”.

Não sou mais obrigado a suportar a alegria totalitária do Carnaval. Vivo em São Paulo. Um paraíso em meio à alegria devastadora do Carnaval.

Espero que São Paulo jamais ceda ao ruído ensurdecedor dos “gritos de Carnaval”.

Que a cidade fique entregue à preguiça dos cinemas menos cheios e dos restaurantes menos lotados, enfim, da sensação de um doce abandono sem pressa alguma de ser feliz.


Luiz Felipe Pondé (21.02.2012)  |  Fonte original do artigo: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR **

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~ por Pathfinder em 05/03/2012.

 
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