A Dor na Face (16/01/2012)


Muitas vezes apenas gostaríamos de dizer “não”. Coisa difícil dizer “não”, porque o “sim” é civilizado na sua condição de hipocrisia necessária para a vida em grupo. Não dizer bom-dia, não dizer que gostou, não dizer que quer ir, não dizer que ama, dizer apenas “não”. Na ordem capitalista em que vivemos, onde tudo circula na velocidade do vento que nos constitui como miserável mercadoria que somos, o “não” aparentemente vende mal.

Mas não é verdade. O “não” é a alma do luxo. “Não quero” pode ser a diferença entre sua banalidade e sua sofisticação não afetada. Mas como tudo que é luxo, o “não” é difícil de achar, de cultivar, de sustentar.

Vende-se muito livro de autoajuda por aí. O leitor que me acompanha sabe como detesto autoajuda. Uma indústria que cresce na mesma proporção em que tudo perde o valor. Mas com isso não quero dizer que não precisemos de ajuda na vida. Somos uns coitados. Mas tem coisa melhor do que esse lixo.

Outro problema é que umas das maiores contradições da vida é que o cotidiano das relações quase sempre inviabiliza afetos espontâneos e nos arremessa a convivência estratégica que apenas “lida” com problemas. Em resumo, quase sempre os membros da nossa família não são nossos melhores amigos e não é gente em que podemos confiar nossos desesperos porque sempre esperam de nós soluções para as demandas do dia a dia. Maridos, esposas, filhos, irmãos, pais, quase sempre não servem para ouvir nossos segredos, mas apenas servem para constatar nossas misérias secretas.

Não há relação evidente entre família e paixões alegres (como diria, mais ou menos, o filósofo do século 17 Baruch Spinoza). As responsabilidades são muitas, as expectativas excessivas, o que era amor se transforma em exigência de sucesso material e segurança previdenciária.

Comumente ataco manifestações de jovens e do povo. Não porque ache que a vida como está seja grande coisa, mas porque considero a infelicidade eterna e atávica do homem a razão final de todo desconforto político, moral e afetivo. Quem diz que a solução do homem é política é sempre um mau caráter que gosta de política. Seja na universidade, seja em Brasília. A vida é uma prisão e não gosto de rotas de fuga falsas.

No fundo, sou mais “anos 60” do que aqueles que dizem ser “anos 60”, mas que viraram “ambientalista de terno e gravata”, “defensores da qualidade de vida” ou “roqueiros que cantam para as crianças da África”. Para mim vale sempre uma regra básica: não confio em nada em que departamentos de recursos humanos confiam. Nutro profunda simpatia por dois pensadores utópicos, Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, ambos do século 19, representantes do movimento libertário americano.

Há uma dor característica causada por sorrisos falsos. Os músculos da face doem por conta do sorriso mentiroso, que é sempre o mais comum em nosso cotidiano, dizia Emerson, autor de “Self-Reliance” (“Autoconfiança”), de 1841, um clássico do movimento libertário. Os homens em sua maioria vivem uma vida de sereno desespero, dizia Thoreau, autor de “Walden” (1854), narrativa de um período de sua vida em que se isolou numa casa num bosque. Thoreau ficou mais conhecido como o criador do conceito de “desobediência civil”, quando disse que o melhor governo é o que governa menos ou de forma nenhuma.

Hoje o pensamento público tornou-se monótono porque todo mundo quer agradar e salvar o mundo. Eu não quero salvar ninguém, nem aspiro a um mundo melhor. Como dizia Emerson, existem grandes vantagens em sermos mal compreendidos (“misunderstood”). A mania de sermos completamente compreendidos nada mais é do que o desejo de agradar a todos o tempo todo, uma das pragas típicas de um mundo marcado pelo marketing de tudo.

Em 2012 espero ser muito mal compreendido por todos aqueles que quiserem fazer de mim seu ídolo, positivo ou negativo, supondo que sabem exatamente o que eu penso ou o que sou. Espero, acima de tudo, como dizia Thoreau, que não tenha que ir a lugar nenhum para o qual eu precise comprar uma roupa nova.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP -16.01.2012)  |  Fonte do artigo COMPLETO: AQUI


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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~ por Pathfinder em 23/01/2012.

4 Respostas to “A Dor na Face (16/01/2012)”

  1. Bom dia!
    Fui apresentada a Luiz Felipe Pndé através de meu psiquiatra que me indicou “Contra um mundo melhor – ensaios do afeto” e estou em estado de deslumbramento. Soou professorade escola pública estadual e municipal em S. Gonçalo, tenho alguns títulos idiotas com formada emInglês pela Universidade de Cambridge na Inglaterra e bióloga pela UFRJ. Sou casada há 6 anos e tenho um filho (sou mãe solteira) de 22 que também estuda na UFRJ (engenharia). Mas nada disso é importante – não para mim. É que pra maioria das pessoas, títulos demonstram quem somos e estou certa que não sou nada disso. Sou uma pessoa insegura e suicida – tentei há pouco mais de dois anos.
    Suas falas, entrevistas e escritos além da leitura e discussão da Bíblia, me consolam e me dão vontade de seguir, não sei pra onde. Mas pelo menos, fazem minha mente e pernas desejarem funcionar.
    Gratíssima,
    Sheila Nunes
    P.S. Sei que este blog não foi montado pelo senhor e talvez, e certamente, a certeza de que nunca lerá o que escrevi, me deram coragem para fazê-lo.

    • Enviaremos sua mensagem para Luiz Felipe Pondé por email, cara Sheila. Não garantimos que leia, porque deve receber uma montanha de emails, mas enviaremos.

      Abraço, Pathfinder

  2. Pondé,
    Você me enoja.

  3. Lendo o comentário da Sra. Sheila, me lembro que quando conheci os escritos (jornalísticos) do Pondé também fiquei um tanto quanto deslumbrado. Porém, conforme os anos e as colunas semanais foram se acumulando, o filósofo foi ficando cada vez mais raso, antipático, repetitivo e partidário. Além de escrever pessimamente. Também li seu livro “Contra Um Mundo Melhor” e aconteceu a mesma coisa. Não resistiu a uma segunda leitura. O que terá acontecido? Serei apenas eu que tive esta impressão?

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