Feliz Ano-Novo, Kafka (02/01/2012)


Acho o Réveillon uma festa chatíssima. Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Tel Aviv, e ainda bem que aqui não tem Réveillon. A cidade é patrimônio cultural universal porque tem o maior conjunto arquitetônico Bauhaus do mundo, o que dá a ela um tom entre o blasé (isto é, a soma do cinza e branco típico dos prédios Bauhaus de poucos andares com o desleixo chique característico da população local mediterrânea) e o moderno da primeira modernização, antes de a modernidade virar essa coisa brega de massa.

Tel Aviv é descrita pelos israelenses como sendo “outro mundo”, diferente do resto do país, justamente por seu caráter secular, arredio ao fanatismo religioso que cresce por aqui e aberto à convivência mundana. Diante desse cenário, sempre que estou nesta cidade, meu pessimismo (que tem sua origem provavelmente em alguma forma de disfunção fisiológica) cede. O desleixo e o ar mediterrâneo, associados ao desespero mudo, embutido no cotidiano de quem se sabe uma espécie caçada, me acalmam. Estranho? Sou estranho mesmo.

Segundo reza uma das lendas sobre Franz Kafka, quando perguntaram a ele se não havia esperanças para o mundo, ele teria respondido: “Esperanças há muitas, mas não para nós”.  De todas as formas de pessimismo, a de Kafka é a única que me assusta. Não temo pessimismos cosmológicos. Não espero nada da vida na forma de recompensa moral (aquilo que a teologia cristã chama “retribuição pelos méritos”). Antes de tudo porque não sou uma pessoa boa. Raramente me preocupo com os outros, e a África pouco me importa. Nem a fome. Nem as baleias. Nem você.

Não conto com a misericórdia de Deus porque não a mereço. Guerras sempre existirão, e a humanidade faz o que pode para sobreviver ao mundo e a si mesma. A possível falta de sentido da vida não me interessa. Durmo bem com ela. Sou daqueles que pensam que a metafísica é fruto de indisposição e mau humor. Mas temo o pessimismo kafkiano como nada mais no mundo. Temo a burocracia. Todo amante da burocracia tem cara de rato. Kafka tinha razão.

O pior mundo de Kafka não é sua barata, mas aquele do seu conto “A Construção”. O roedor que faz a “construção” em sua casa é a melhor descrição do inferno burocrático em que o mundo se transformou.

Kafka, à diferença da maioria de nossos especialistas em ciências humanas, sabe que construímos a burocracia para nos sentir seguros, e não porque nos obrigam a isso. E o pior é que existem muitas razões para nos sentirmos inseguros, por isso não há saída para o inferno que é a burocracia.

Algumas almas menos brilhantes assumem que um mundo “paperless” (nada mais ridículo do que usar expressões em inglês para se sentir mais científico), ou seja, sem papel, seria menos burocrático. Risadas… Nada mais horroroso do que alguns restaurantes que começam a trocar seus menus “físicos” por iPads. Logo nos farão escolher nossos pratos via rede, e eles acharão isso o máximo. Um mundo “paperless” afogar-se-á em senhas. Você precisará de uma senha especial para usar sua senha menos especial e assim sucessivamente, ao infinito. Depois, precisará de um programa superavançado para ter acesso a todas as suas senhas e combiná-las de modo secreto (em si, uma outra senha).

Quando você tiver uma crise diante de tudo isso, algum burocrata dirá para você que isso tudo é para sua segurança. E você será obrigado a concordar, assumindo também uma cara de rato. Mas, dirão as almas menos brilhantes, graças a Deus estamos cortando menos árvores e não estamos gerando papel.

No conto de Kafka “A Construção”, nosso roedor atarefado teme um ruído horroroso que vem não sabe de onde e por isso começa a construir “rotas de fuga” em sua moradia subterrânea. Logo, a rede de “rotas de fuga” é tão grande que ele se esquece onde começou e descobre que, apesar de o ruído aumentar cada vez mais e sua sensação de perigo aumentar junto com o ruído, ele já não sabe como fugir, porque suas rotas de fuga viraram um labirinto infernal.

O mundo de Kafka é uma prisão a céu aberto, e os ratos venceram. Feliz Ano-Novo.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 02.01.2012) | Fontes do ARTIGO COMPLETO: LINK A ou LINK B


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **

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NOTA

A partir deste mês, o ator Caco Ciocler encenará o texto de Kafka citado por Pondé, sendo novamente dirigido por Roberto Alvim na peça “A Construção”, que estreia no Sesc Pompeia (zona oeste de São Paulo) no dia 10 de fevereiro e faz uma série de oito ensaios abertos na Caixa Cultural (centro), de 26 de janeiro a 5 de fevereiro, com entrada gratuita.

Para SABER MAIS sobre a peça, visite o Guia da Folha online.

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~ por Pathfinder em 09/01/2012.

6 Respostas to “Feliz Ano-Novo, Kafka (02/01/2012)”

  1. ….Ahn, ……bom, ……agora eu entendi por que você entrou para o,

    …” Instituto Mileniun “.

  2. E isso quer dizer o que exatamente?

    Acho que seu comentário não está claro.

    • ..Cara,…” Pathfinder “.
      ..
      ..Entre no Site do ” Instituto Mileniun ” e veja a córjinha de gente que faz
      ..parte daquilo.
      ..
      ..Aí,…você leia o texto do Pondé de novo e tíre suas ” conclusões “.
      ..
      ..OK ?

      • Entrei e vi a lista imensa de articulistas. Não conheço muitos deles e dos que conheço, alguns tem pensamento conservador, como o Pondé. Apenas isso. Se são “corja” ou não, não tenho informação para julgar. Nem sei quais são os parâmetros que você está usando para rotulá-los assim, caro Fábio.

        De qualquer forma, seu comentário sugere que ser um articulista desse Instituto implica em algum tipo de falha de caráter ou algo assim. Também não acho que seja possível fazer esse julgamento sobre o Pondé, baseado em um artigo da Folha e no fato de que ele escreve eventualmente para o tal Millenium…

        Certamente você não concorda com a opinião de Pondé e, obviamente, com a de Kafka, exposta no artigo. Ok, está no seu direito. Mas deveria expor as suas razões com argumentos que debatam o artigo e não com uma associação do articulista a uma instituição qualquer. Artigos devem ser discutidos com argumentos que exponham e, se for o caso, contestem o tema.

        Abraço,

  3. ..Cara, ” Pathfinder ” .
    ..
    ..As vezes na vida, nôs deparamos com alguns ” ditados ” que por vezes
    ..acabam se mostrando verdadeiros na vida REAL.
    ..
    .. Exemplo :
    ..
    .. ” diga-me com quem andas que direi quem tu és…”
    ..
    ..Parece uma bobagem,…porém, …..tem um fundo de verdade.
    ..
    ..Como o texto do Pondé abrange alguns matizes do ” ser humano ”
    ..incluindo a visão de Kafka,
    ..me fixei mais em quando ele se autoploclama,…. ” não sou uma pessoa boa “.
    ..
    ..Tipos,…não to nem aí pro mundo, …..pras PESSOAS,…enfim,
    ..
    ..prá alguém que quer ser ,… ” anarquista psico/poli/social ” como ele,
    ..espera-se que não ENGROSSE ” fileiras ” de nenhum ” exercito “, …cérto ?
    ..
    .. Então, sua ” fótinha ” lá no ” Instituto Mileniun ” móstra que ele está,
    … SIM,
    ..preocupado com as,… ” pessoas “.
    ..
    ..E aí está o,….. ” X “,….. da questã.
    ..
    … Qui,…..” PESSOAS ” …?

  4. Complicado…julgamentos de todos os lados…

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