Pondé e o pântano da alma




CÁ ESTOU mais uma vez em meio ao vazio. Lá embaixo, o Atlântico mergulhado na majestade do silêncio. […] No escuro, com a pequena luz que me cabe neste silêncio, leio Georges Bernanos. Se você é uma alma como eu (que pressente o pecado como sua substância), e nunca leu Bernanos, leia. […]

Meu Deus, como sou fraco! A habilidade de pensar em mim não é uma virtude intelectual, mas um vício de temperamento que pode parecer uma ética do “amor ao conhecimento”, mas que na verdade não passa de um gosto maníaco por ver como o pensamento disseca a realidade a serviço do nada. O ceticismo em mim é um produto do cérebro réptil, automático, como a respiração. […]

Tomo emprestado a imagem, muitas vezes usada pra descrever a obra do grande Nelson Rodrigues, como título dessa coluna: “um sol sobre o pântano”, sendo o pântano nossa alma, e o sol (muitas vezes demoníaco), o gosto de olhá-la nua. O pecado, por sua vez, me parece ainda a melhor ferramenta pra nos conhecermos. […]

O avaro corroído pelo seu câncer, o luxurioso como um cadáver, o ambicioso tomado por um único sonho, o invejoso que está sempre em vigília“. […]
Enfim, o nada lá fora, o nada aqui dentro. Ao meu redor, todos dormem, mas eu estou de vigília. A turbina ao meu lado.


Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 04.07.2011)

FONTE do artigo completo: Conteúdo Livre



** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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~ por Pathfinder em 04/07/2011.

Uma resposta to “Pondé e o pântano da alma”

  1. […] Também não acredito no homem, e muito menos em mim mesmo.  Mas creio na Graça. A Graça misteriosa e escondida. A Graça que tem o poder de contrariar a […]

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