Flagelo da Classe Média (23.05.2011)


Basta ver o tanto de bobagens que se fala no Facebook, tipo “fui ao banheiro”

Luiz Felipe Pondé (originalmente publicado no jornal FSPFONTE: Conteúdo Livre 


Fonte da imagem: notícia sobre classe média em WHO IS BRIAN BECKMAN


NÃO SOU BEM RESOLVIDO, tenho muitos preconceitos. Um deles é contra a classe média. Além disso, sou cheio de maus hábitos: charutos, cachimbos, álcool, comida com sangue e não ando de bike. Para mim, o vício e a culpa são o centro da vida moral. Enfim, não sou uma pessoa muito saudável. Por isso, não sou de confiança. Mas não pense que sofro do fígado; sou apenas um fraco.

Tenho uma amiga, muito inteligente, que costuma me chamar de “flagelo da classe média”. Quando falo “classe média”, não olhe para seu saldo bancário, olhe para dentro de si mesmo. Classe média é um estado de espírito, e não apenas uma “alíquota” do imposto de renda ou o tipo de cartão de crédito que você tem. Uma das marcas da classe média é pensar que, quando se fala de classe média, pensa-se essencialmente em saldo bancário.

Você pode ter muita grana e pensar como classe média, quer ver? Vou dar um exemplo de um surto de classe média em alguém que não era da classe média.

O sociólogo húngaro radicado na Inglaterra Frank Furedi, em seu livroTherapy Culture[trechos do livro AQUI], comenta como a Lady Di (morta tragicamente em 1997), a “princesa da classe média inglesa” ou a “princesa do povo”, lamentou para a mídia o fato de seu então marido, príncipe Charles (herdeiro do trono da Inglaterra), ter uma amante. Podemos imaginar uma mulher do East End londrino se sentindo irmã da então princesa porque ambas sofreriam da mesma maldição: a infidelidade em um casamento infeliz. Choravam juntas, uma na frente da TV, outra na frente das câmeras.

Lady Di nunca entendeu o que é ser da aristocracia, confundiu-se com a classe média e seus anseios de que casamento, amor e felicidade sejam uma coisa só. Mas não há muito o que fazer com relação à realeza hoje em dia, porque vivemos no mundo da opinião pública e “ter opinião sobre tudo” é um fetiche típico do espírito de classe média. Alexis de Tocqueville (1805-1859) já dizia que a democracia é tagarela.

Quando se depende da opinião pública já não há mais saída para escapar das “redes sociais” típicas do mundo contemporâneo, no qual as pessoas têm opinião sobre tudo a partir de seus apartamentos de dois quartos com lavabo. Basta ver o tanto de bobagens que se fala no Facebook, tipo “fui ao banheiro” ou “vomitei”. Além de “revoluções diferenciadas”, as redes sociais potencializam a banalidade humana.

Quando a classe média sonha, ela sempre pensa como Cinderela. “Querer ser feliz” é coisa de classe média. Você pode ser milionário e ter cabeça de classe média, por exemplo, quando faz algo preocupado com o que os outros vão pensar. Nada mais típico do espírito da classe média do que citar um restaurante numa ruazinha em Paris para mostrar que conhece a cidade.

Por outro lado, você pode ser uma pessoa que “batalha” pela vida e não pensar como Cinderela. Basta não criar de si mesmo uma imagem de “reduto do bem e da honestidade”. O bom-mocismo social é o novo puritanismo hipócrita do início deste século.

Uma clara semelhança de espírito entre “aristocracia” e as classes sociais mais pobres (aparente absurdo) é a pouca ilusão com relação à hipocrisia social, substância da moral pública. A primeira porque está acima da hipocrisia social (não precisa dela porque tem poder), e a segunda porque está abaixo da mesma hipocrisia social (não pode bancar a hipocrisia porque hipocrisia é um pequeno luxo).

O que caracteriza o espírito da classe média é pensar mais de si mesma do que ela é. Já que não tem nada, mas não morre de fome, fabrica de si mesma uma história de grandeza que não existe.

Por exemplo, inventa para si mesma uma “história de dignidade familiar”, quando ninguém sobrevive sendo “digno”, acha que educa bem seus filhos sempre “brilhantes”, calcula cada proteína que come, num movimento de ganância travestido de preocupação com a vida, diz coisas como “não minto”, quando, sabemos, a vida se afoga em mentiras necessárias à própria vida.

A classe média adora ter uma família de pobres como “amigos” para exibir por aí. Enfim, a classe média sofre de avareza espiritual.



ponde.folha@uol.com.br


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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VEJA TAMBÉM

Book Review:

Therapy Culture: Cultivating Vulnerability in an Uncertain Age

THE GUARDIAN online (UK, 2003)




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~ por Pathfinder em 23/05/2011.

3 Respostas to “Flagelo da Classe Média (23.05.2011)”

  1. Concordo com ele em muitas coisas que escreve, gosto de vários de seus artigos, mas Pondé parece não saber discernir quando seus “exemplos” deixam de ser crítica e passam a ser um simples DEBOCHE que menospreza o outro: no caso, os menos “afortunados” que moram em apartamentos pequenos.

    Para criticar o “espírito de classe média”, como ele o chama, não precisa debochar de moradias com dois quartos e um lavabo, eu acho. Muita gente mora nessas condições e nem por isso são portadores desse “espírito” de avareza. Muito pelo contrário, podem ser pessoas reservadas, que NÃO vivem “querendo ser felizes” o tempo todo (já que isso parece a ele um grande problema e, porque não dizer, um defeito) e até “conservadoras” (como o próprio articulista apregoa ser).

    Sinceramente, NÃO VEJO RELAÇÃO do tamanho do apartamento em que alguém vive com o que ele está tentando criticar neste artigo. Uma coisa não implica necessariamente a outra. Algumas vezes esse filósofo é apenas MUITO PEDANTE, talvez elitista mesmo, como sempre o acusam. Um pouco de humildade e respeito aos que não vivem em apartamentos ou casas luxuosas — que deve ser o caso dele, já que usou o exemplo do “apartamentinho” — não faria mal nenhum ao sujeito.

    Ah, e dizer que ele usou o exemplo apenas de forma “ilustrativa”, ou qualquer outra explicação, não vai colar. Não para mim, pelo menos! SOOU PEDANTE e ponto final.

    • Um texto desse tamanho e você se preocupa com um apartamento de dois quartos e um lavabo. Espírito de Classe média.

  2. Os deboches, ironias e outras tirações de onda fazem parte do estilo de Pondé. Acho que ele faz isso pra provocar, suscitar a reflexão e – por que não? – a critica do seu proprio texto. Sem dúvida, ele não escreve pra nós tomarmos como verdade absoluto o que diz. Enfim, as vezes acho que não devemos levá-lo muito a serio. É uma questão de narrativa, de estilo e retórica, eu acho.

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