“Só os neuróticos verão a Deus” (28.03.2011)

Faz muito mal pensar em dinheiro e sucesso. Meu Deus, quanta escravidão! Onde foi que eu me perdi?

LUIZ FELIPE PONDÉ (originalmente publicado no jornal FSP)  |  Fonte: Conteúdo Livre



Tenho pensando demais em dinheiro e sucesso. Não porque eu os tenha em excesso (haveria uma “quantidade justa” de dinheiro e sucesso?), mas porque, sem eles, somos afogados no sentimento da inexistência. Talvez por isso tanta conversa fiada sobre sermos honestos e desapegados quando, na realidade, em silêncio, babamos por dinheiro e sucesso.

Haverá amor sem dinheiro e sucesso, ou terá razão o grandioso Nelson Rodrigues quando diz que dinheiro compra até amor verdadeiro? Aqui, ele fala a anos-luz de distância da sensibilidade infantil da classe média e de seu marketing da ética que assola o mundo.

Quando me afundo na agonia, tenho dois profetas: Nelson Rodrigues e Fiodor Dostoiévski. Diante deles, sou um anão de Velásquez. À noite, ouço a voz do demônio do ceticismo me chamando para o seu país da solidão e sua aridez de três desertos.

Um dos efeitos clínicos do ceticismo é a indiferença para com o que os outros pensam. Num mundo do marketing, que faz da vida um baile da monarquia francesa decadente do final do século 18, a indiferença para com o que os outros pensam é uma forma de ascese. Mas, como toda ascese, é uma danação.

Faz mal pensar em dinheiro e sucesso. Meu Deus, que escravidão! Onde me perdi? Talvez na infância, quando percebi que o mundo não só é indiferente a nós, mas que nossa mãe é também uma pobre carente de amor e que nosso pai (quando existe pai, porque pai é produto da indústria do luxo) é um coitado esmagado pela carência não só de amor, mas também de dinheiro e de sucesso.

Tornei-me esse ser obscuro e muitas vezes cínico cedo demais. Digo sempre aos meus alunos que tomem cuidado com excessos de ceticismo na juventude, porque ele facilmente deforma a face, e quando se é jovem a face ainda é o espelho da alma.

Hoje estou em companhia de Nelson Rodrigues e sua sublime obsessão pela alma atormentada. Há dias o leio e releio, assim como quem toma um remédio acima da dose, tropeçando na água, por pura pressa de ver o mundo, de novo, por trás de sua membrana opaca. À diferença de Kant, Nelson sim conhecia a “coisa em si”. Sua peça “Bonitinha, Mas Ordinária” é essencialmente dominada pela angústia moral dostoievskiana. Nela, o herói, Edgar, é atormentado pela famosa frase, supostamente de Otto Lara Resende, “mineiro só é solidário no câncer”.

Segundo a fortuna crítica, esta sentença niilista seria, por sua vez, semelhante a uma de Ivan Karamazov: “Se Deus não existe, tudo é permitido”; se não há Deus, não há impedimento absoluto contra o que quisermos fazer.

Se o mineiro só é solidário no câncer, é porque sua solidariedade não passa de um gozo secreto pela miséria do “amigo” doente. Se a única solidariedade possível é essa, então não há solidariedade de fato, logo, não há esperança para o mundo.

Ambas as frases decretariam o niilismo como condição amoral do mundo. E o niilismo não é uma brincadeira de adolescente que atropela gatos com sua bicicleta, é um fardo, um fado, um problema filosófico, para alguns, o maior dos séculos 19 e 20, que reuniu ao seu redor gente como Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Dostoiévski, Turguêniev, Cioran, Bernanos, Berdiaev e o próprio Nelson. Não é o drama do “serial killer” de TV. É o drama do policial honesto diante da inexistência do bem como forma de ordenamento do mundo.

Não pressinto o niilismo quando escrevo por aí poemas ruins sobre a agonia dos pobres nas ruas, pressinto o niilismo quando sei que esses poemas são mentiras na forma de marketing da ética, uma especialização do recém-criado “personal marketing”. Ambos logo serão um MBA na área de recursos humanos.

Certa feita, falando sobre sua peça “Bonitinha, Mas Ordinária”, Nelson disse (respire fundo): “A nossa opção, repito, é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece. E, se me perguntarem o que eu quero dizer com minha peça, eu responderia: que só os neuróticos verão a Deus”.

Bem-aventurados os de sorriso raro e de beleza tímida. Bem-aventurados os que se desesperam, mas não desistem, porque deles é o reino dos céus.



ponde.folha@uol.com.br


** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


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Por que não nos inspirarmos em Pondé hoje, com seu BELÍSSIMO e GRAVE texto, e desistimos de “desistir”? Afinal, todo mundo quer um “pedacinho do céu”. Quem diz que não, está mentindo! Porque mesmo que não esteja ao nosso alcance, de vez em quando é preciso “sonhar”…

CONGRATULATIONS, Pondé! For a moment, it really took our breath away…


Abraço a todos, Equipe Pathfinder


Creio que o homem, em todos os quadrantes, é caso perdido, um ser trágico, que ama e morre, vivendo entre essas duas limitações. A meu ver, nada diminuirá a angústia humana. Mesmo transformados todos nós em rockefellers, cada um com oitocentos iates, cinqüenta amantes, casas na Riviera, não sairemos de nosso inferno, continuaremos míseras criaturas. Crer que essa angústia possa ser eliminada é digno de um simplório ou de um canalha.

(Declaração de Nelson. Teatro completo de Nelson Rodrigues 4, pagina 283)


As senhoras me diziam: “Eu queria que seus personagens fossem como todo mundo”. E não ocorria a ninguém que, justamente, meus personagens são “como todo mundo” – e daí a repulsa que provocam. “Todo mundo” não gosta de ver no palco suas íntimas chagas, suas inconfessas abjeções.

(RODRIGUES, Nelson. O Reacionário. Pág. 170)


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~ por Pathfinder em 28/03/2011.

 
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