Artigo para a revista REVER (Ciências da Religião, PUC-SP, 2003)


Este artigo  foi gentilmente enviado (há bastante tempo, por sinal) por Hugo Marcelo Barbosa, que acompanha nosso blog. Demoramos para postar por falta de tempo. Muito obrigado, Hugo!


Elementos para uma Teoria da Consciência Apofática

LUIZ FELIPE PONDÉ (conteúdo original da Revista REVER Nro.4 – Ano 3 – 2003)

A Revista REVER é uma publicação do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da PUC-SP


RESUMO:

Partindo de uma discussão epistemológica geral, que se move por um cenário pragmático e evolucionista, a intenção do artigo é discutir a conceito de consciência apofática na tradição teológica negativa cristã, defendendo a idéia de que o discurso místico em questão se constitui numa noética específica, fundamental para uma teoria da mística.

ABSTRACT:

Starting with a general epistemological discussion in a pragmatic and darwinian scenario, the paper aims at discussing the concept of apophatic consciousness in the Christian negative theological tradition, defending the idea that the mystic speech in question consitutes a specific noetics which is fundamental for a theory of mysticism.


TRECHO INICIAL do texto:


Nossos ‘ambientes naturais’ incluem, é claro, as criaturas que são nossas companheiras, nossas práticas e as delas, e o que nós e elas produzimos – cultura, nesse sentido – que, no caso dos seres humanos, inclui sistemas conceituais, expressões verbais, teorias, textos, partes de equipamentos, habilidades técnicas, rotinas de treinamento e as instituições que conservam e transmitem todas essas coisas.”

(Barbara Herrnstein Smith, Crença e Resistência, Unesp, 2002, pgs., 105/106)

 

Epistemologia é hoje, antes de tudo, uma consciência aguda do fato que nós, como as bactérias, somos seres “de cultura”. Em nosso caso, a relação com o meio ambiente no qual estamos inseridos (provavelmente devido a um certo tipo de pseudo-estabilidade complexa alcançada ao longo dos milênios, normalmente descrita como “crença” – atavismo animal ou “conhecimento” –, que se constitui numa adesão sem fundamento estrutural a modos variados de imagens neuronalmente produzidas, como reação ao meio exterior e/ou interior ao corpo) acabou se materializando também em sons articulados que chamamos conceitos. Isso quer dizer que bactérias e insetos, assim como peixes, devem ter desenvolvido procedimentos que realizam algum tipo de cognição – isto é, existiria uma “zooepistemologia” que desconhecemos. O relativismo “sócio-cultural” seria um modo menor de consciência sofista se comparado ao relativismo biológico-condicionado. P

Para além desse biorepertório, a questão passa pela dúvida – para alguns, nem mais dúvida – se é ainda possível falarmos em episteme em oposição a doxa (o “erro” de Platão), na medida em que tudo o que realizamos em termos cognitivos não passa de produtos condicionados pela “cultura” local – não haveria, portanto, conhecimento incondicionado (o que, a rigor, pode implicar um certo contra-senso lógico), termo que tem sérias ressonâncias para alguém que estuda mística apofática. Na caverna só contemplamos sombras (logo, só há teoria das sombras) que não são reflexo de luz alguma, mas apenas esboços produzidos pelo atrito entre nossas terminações nervosas e as partículas bioquímicas que nos envolvem e nos compõem. Sombras das sombras, em meio as quais, somente um ruído se articula – na realidade, um imperativo categórico: adapte-se. A validade de uma configuração específica de sombras é unicamente pragmática, já que não há, a rigor, estrutura mas apenas conjuntura. Lembremos: a “teoria da adaptação seletiva” é, também, uma crença – o que significa dizer que a “objetividade” dela é apenas a de um comportamento cognitivo que se impõe como um lugar privilegiado na cadeia epistêmica por produzir uma interpretação do “mundo” que parece funcionar hoje em dia. A descrição da cognição humana como discernimento retórico em meio a sombras não é contemporâneo: Protágoras já afirmara que o que normalmente chamamos de “verdade” é o efeito da teia lingüística que melhor nos condiciona.

Se a “verdade” é função de uma teia, possivelmente encontraremos em algum lugar a sombra de uma aranha. A microdinâmica dos modos de crer – realização de cognição – revela-se como um contínuo que cegamente testa crenças (comportamentos cognitivos) úteis ou mortais, num ecossistema infinitamente horizontal que perfaz um círculo sem centro, chamado por alguns de hermenêutico – esse teste é a materialidade bioepistemológica em ato. Um sotaque específico, um endereço institucional e/ou residencial, uma pesquisa de uma vida inteira, uma reputação bem posta, um best seller, uma causa que pareça justa, uma moda militante, uma milhagem alta, um olhar cativante, o cansaço, tudo isso é parte da teia microdinâmica da crença. Qual a possibilidade de que uma pergunta feita por uma mulher d’Angola tenha o mesmo peso de uma pergunta feita por uma inglesa? Imaginando que a angolana articule questões que outras ouvem. Evidentemente que a angolana terá muito provavelmente menos recursos tais como bolsas, bibliotecas, serviço de eletricidade, internet rápida, serviços rápidos e eficientes de transporte público, métodos contraceptivos, etc. É muito provável que as perguntas mais importantes venham da inglesa e que mesmo em Angola, as mulheres leiam os livros das inglesas e não as teses angolanas. O contágio da “cultura” angolana é inevitável. Quando uma angolana falar, provavelmente o fará a partir do pensamento da inglesa. Ver como essas duas mulheres pensam juntas é fazer epistemologia. Epistemologia “em cultura” é contabilizar e agenciar a doxa. Isso de modo nenhum implica ausência de responsabilidade epistêmica – ainda que possa assim ser interpretado –, mas sim a necessidade de que nos apropriemos dessa conjuntura infinita que mimetiza, pela inércia do hábito, uma estrutura de funcionamento que na realidade é inexistente. Há que se colocar (bem) na cadeia alimentar hermenêutica: não há como aprender epistemologia sem fazer epistemologia.

Uma tal descrição da epistemologia (pragmática e darwiniana) revela evidentemente uma identidade sofista profunda entre “verdade” e “poder”, como toda concepção retórica do conhecimento, o que não é por si de modo algum uma evidência auto-fundadora – algo muito parecido ao que Leo Strauss descreve como a infelicidade da “politização” do conhecimento em termos de “power politics”. O que vemos por detrás da “culturalização” do saber é uma simples redução da busca pelo conhecimento a idéia da força da persuasão (como todo modo de epistemologia circular). Não me parece estranho que, de certa forma, nos aproximemos demasiadamente de uma idéia de epistemologia como técnicas sofisticadas de publicidade. E mais: há uma clara tendência na “cosmologia” darwiniana – e a pragmática evolucionista é apenas um caso dentro de uma descrição geral – a uma cerrada crítica a qualquer noção de causa teleológica, o que anula qualquer idéia de intencionalidade (a “lei da sobrevivência” ou a “lei da violência” não passam de atrito em si randômico entre partículas indiferentes, posteriormente interpretado por nós como seletividade “natural”), colorindo o universo com o tom de um sonambulismo feroz em meio ao qual uma linguagem joga seu jogo contingente.

[continua…]


PARA LER O TEXTO NA INTEGRA:

[1] Achamos que o texto é muito longo para ser postado na área disponível neste blog, por isso disponibilizamos apenas o trecho inicial. Para ler o texto completo, visite a página desse número da revista REVER.

[2] OU baixe diretamente o PDF do texto completo para o seu computador, clicando neste link.


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~ por Pathfinder em 16/03/2011.

 
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