A beleza salvará o mundo (01.12.2014)

•02/12/2014 • Deixe um comentário

(2014.12.01) BELEZA SALVARA O MUNDO (1)


Caro leitor, cara leitora, que sua semana se abra com tamanha beleza:

Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.

É uma fala de Julieta na peça “Romeu e Julieta” de William Shakespeare. E mais:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.

Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargistes tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo do desejo da tua paz

O trecho é de “Confissões” de Santo Agostinho, capítulo dez.

O grande autor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) dizia que a beleza salvaria o mundo. Conhecendo o abismo do desespero e do niilismo, ele profetizou a força da beleza como restauradora do espírito.

Para ele, habitaríamos um futuro em que a verdade desapareceria por força de nossa própria dúvida e razão, e que, talvez, apenas a beleza poderia recuperar a forma do mundo. Mundo este feito para acolher a misericórdia, já que habitado por solitários como nós. A esperança, para o nosso russo, é flor que brota dos escombros. Visões de um romântico, claro. Romântico como a jovem Julieta.

Mesmo que presos ao tempo — que nos assola a cada dia com o desespero que parece brotar do vazio das horas e lentamente nos revela o destino que nos espera –, é este mesmo tempo que ambos, Shakespeare e Santo Agostinho, chamam à cena para marcar o momento da descoberta da beleza.

Sempre tarde demais ou cedo demais, ela chega. E nós, com nossas palavras e gestos, corremos atrás pra dar-lhe nome. Romeu e Deus. É pelo esforço de dar nome à doce fúria que ela nos incita, que recuperamos o gosto pelas coisas.

Mesmo que seja, como diz o príncipe no final de “Romeu e Julieta”, para nos mostrar como nosso mundo não suporta a beleza de dois jovens que se amam, sem perceberem que o mundo não é lugar para tamanha monstruosidade de um amor fora do lugar.

A beleza que Agostinho tarda a amar, na história de Cristo, é esta beleza mesma, despedaçada pela incapacidade humana de sair da cela da humilhação para a leveza da humildade — única virtude indestrutível, como diria outro grande artista, Georges Bernanos.

Sem a humildade, nos sentimos humilhados pela beleza de Deus. O desejo enlouquecido de Agostinho no texto é lugar comum na literatura mística, tradição marcada pelo encontro com esta beleza.

No texto de Shakespeare, Romeu é o objeto de amor avassalador da jovem de 13 anos conhecida como Julieta, da nobre família dos Capuleto, representante aqui de todo homem e toda mulher que um dia enlouqueceu de amor.

No texto de Santo Agostinho, Deus é o objeto. Aquele que sustenta tudo que existe e que é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo. Conhecer Deus exige de nós um autoconhecimento desconhecido para quem nunca se descobriu cego.

Beleza esta que nasce das profundezas da cegueira de quem se sabe incapaz de criá-la, mas pressente sua presença nalgum lugar que não sou eu.

Uma ciência do mistério, que encanta todos que um dia escreveram sobre ela. Ridícula, como diria o profeta russo Dostoiévski em seu maravilhoso conto tardio, “O Sonho de um Homem Ridículo“, porque inacessível para quem nunca se viu disforme.

Se lembrarmos o que dizia outro grande artista, Nelson Rodrigues, que escrevia contos de amor e morte, assistiríamos à peça “Romeu e Julieta” de joelhos.

Logo o amor será objeto de algum psicofármaco. Trataremos Julieta com calmantes, como já tratamos Santo Agostinho. Eis o inferno para um romântico: a vida “bem” resolvida.


Luiz Felipe Pondé  (jornal FSP – 01.12.2014)   |   Outra fonte para este artigo: AQUI


Ilustração (detalhe) de Lee Minkyo (2011)


Relatos selvagens (24.11.2014)

•25/11/2014 • Comentários desativados


Por que nosso cinema brasileiro é tão inferior ao argentino? A Argentina está quebrada há anos. Sua política é risível (peronismo de todos os lados). Sua presidente atual, uma bolivariana louca. Mas “los hermanos” continuam anos-luz à nossa frente em uma porção de coisas, entre elas o cinema. A “cultura” brasileira é ainda um atraso em comparação à argentina.

Nosso cinema patina na fórmula da comédia escrachada, masturbações ao redor do amor neurótico, do “coitadismo” (coitado do pobre, do bandido, do drogado) ou de seu contrário: pobre é lindo, bandido é lindo, drogado é lindo. E agora uma novidade: as questões de gênero.

Existe um lugar-comum para o cinema inteligentinho entre nós: a crítica social. Parodiando o grande Oscar Wilde, quando dizia que toda poesia sincera é ruim, eu diria que todo filme de crítica social é ruim. No mínimo, chato. E não deve melhorar, na medida em que os jovens cineastas continuam sendo formados, em grande parte, no culto a Cuba como meca da resistência ao capital — dá até vontade de rir, se não fosse caso para chorar…

E aí, chegamos a “Relatos Selvagens“, dirigido pelo argentino Damián Szifrón, que conta seis histórias curtas sobre violência. Não, você não vai ver um filme falando de como o capital é responsável por todas as desgraças do mundo, nem sobre como a sociedade desigual produz todo o mal. “Relatos Selvagens” não é infantil — e, quem pensa que a violência é fruto do capitalismo, é infantil.

Mas, claro, as relações entre as pessoas num mundo do dinheiro são parte de como se dá a violência. Por exemplo, numa das histórias do longa, o personagem de Ricardo Darín é esmagado por algo que conhecemos muito bem: a parceria criminosa entre governo e as empresas privadas que prestam serviços a ele, gerando todo o aparato de multas no trânsito nas grandes cidades, câmeras fotográficas, guinchos e afins. Além, claro, da burocracia enlouquecedora, feita para inviabilizar qualquer tentativa de reação por parte das pessoas.

Entretanto, pela própria apresentação do filme, vemos que o lugar da violência parece estar além do maniqueísmo típico das ciências sociais: os animais selvagens olhando para as câmeras que os fotografam relevam nosso parentesco de alma com eles.



O tratamento da violência no longa parece ser o seguinte: a violência é constitutiva da espécie e a civilização faz o que pode com isso. Inclusive porque é a própria civilização quem estimula a violência, muitas vezes vista como o “ato de coragem” — que, em um dos relatos, faz um homem recuperar o respeito da própria esposa.

A violência é feia, destrutiva, ridícula. Mas, às vezes, a negação dela seria destrutiva, como na história em que um milionário, achacado pela corrupção do sistema judiciário argentino, decide ser mais agressivo na negociação da propina e consegue reduzir seus gastos com um crime que envolve seu filho, um mauricinho irresponsável.

Aliás, nesse mesmo caso vemos como as classes menos favorecidas sabem muito bem como manipular seus “ganhos” no esquema de corrupção. Um cínico diria que a corrupção também pode ser inclusiva.

Noutra história, a diferença de “natureza” entre duas pessoas distintas pode fazer com que uma, com todas as razões do mundo para se vingar, se mantenha imune ao instinto violento e outra, sem nenhuma relação com o caso em questão, se revele uma besta assassina. Diferenças de caráter individual, claro, eram consideradas um “fetiche” burguês pelo velho Marx.

Não faltaria em uma obra consistente como “Relatos Selvagens” o reconhecimento da íntima relação entre violência e Eros. A história da festa de casamento traz à tona a sabida “energia positiva da agressividade” no tesão entre um homem e uma mulher. A paz eterna é brocha.

No primeiro relato, somos levados a pensar: qual gostosa nunca trocou o namorado bundão pelo amigo descolado? Quem nunca riu de alguém medíocre? Qual terapeuta nunca subiu o preço da sessão?

Bem-vindos à vida real, e não à pasmaceira politicamente correta brasileira.



Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 24.11.2014)  | Outra fonte para este artigo: AQUI



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“Esperança do Mundo” (12.05.2014)

•13/05/2014 • Comentários desativados

Veerle Baetens tatuada para o filme por Emilie Guillaume

Veerle Baetens tatuada para o filme “Alabama Monroe” por Emilie Guillaume


“Nunca confiei na felicidade”, diz o personagem de Robert Duvall no filme Tender Mercies (“A Força do Carinho”, título brasileiro bem infeliz para o filme), papel com o qual ganhou o Oscar de melhor ator em 1983. O filme narra a derrocada de um cantor de música country e sua sofrida redenção, graças ao amor e generosidade de uma mulher.

No filme, salta aos olhos o deserto do Texas, a solidão de todas as planícies e a total ausência de qualquer metafísica barata, coisa comum hoje no cinema, seja ela moral, psicológica, ambiental ou política. O homem e a mulher são seres abandonados no mundo e devem cuidar de suas vidas porque ninguém mais o fará.

Aliás, por falar em metafísica, a pior é a política. Mas da política trato apenas por obrigação profissional, porque, como diz Albert Camus nos seus “Cadernos” (o primeiro tem como título “Esperança do Mundo“), ouvindo aqueles que se dedicam à política, podemos apenas concluir que as pessoas se importam pouco com esta parte das suas vidas, uma vez que todos na política mentem.

Acrescentaria, além dos políticos profissionais, os intelectuais que a ela se voltam como redenção do mundo e forma de obrigar os outros a viverem de acordo com os delírios que alimentam em seus gabinetes. Enfim, no fundo, a política pouco me interessa. Trato-a assim como quem deve cuidar de uma ferida -— do contrário ela se infectará.

Noutro filme, Alabama Monroe (2012), do diretor Felix van Groeningen, a personagem feminina Elise, interpretada por Veerle Baetens, diz algo semelhante ao final: “Sempre soube que tudo aquilo não podia durar, porque a felicidade sempre acaba”. Referia-se ela ao amor por seu marido Didier e pela pequena filha morta.

Sinto-me em casa quando ouço pessoas dizerem coisas assim. Pois se existem apenas “três ou quatro atitudes diante do mundo”, como dizia em seu “Breviário da Decomposição” Emil Cioran, filósofo romeno indispensável para quem suspeita que os trágicos gregos são quem tem razão na filosofia, esta é a minha. E seguramente a dele. E também a de Camus.

Na mesma obra, Cioran faz um diagnóstico preciso: “A obsessão pelos remédios marca o fim de uma civilização, e, pela salvação, o fim da filosofia”. Por isso ele afirma que desistiu da filosofia quando viu que em Kant não havia nenhuma tristeza. Os filósofos, diz Cioran, quase todos acabam bem, prova máxima contra a honestidade deles.

Sempre sinto um cheiro de mesquinharia quando ouço alguém falar de uma nova dieta. A vida, talvez seja esta sua maior tragédia, se apequena quando não é de algum modo dada em sacrifício. Talvez seja isso que o cristianismo queira dizer quando afirma que só quando se perde a vida se ganha a vida. E não há saída: somos a civilização da mesquinharia. Até Cristo deve ser saudável.

Sei que Camus considerava o suicídio o único problema filosófico (“O Mito de Sísifo”). E sei também que ele considerava um milagre um momento em que não tivesse que falar de si mesmo (caderno “Esperança do Mundo”). Detalhe: Camus usa expressões como “milagre”, conhecia bem teólogos como Blaise Pascal e conceitos como o de “graça”, citando-os com precisão.

Mas eu suspeito que um dos maiores problemas da filosofia, e certamente um dos maiores milagres na vida, para quem tem um temperamento que desconfia da felicidade (trágico), é justamente o problema que Camus diz “ser um bom título”: a esperança do mundo.

Como ter esperança no mundo sem ter que abdicar da capacidade de vê-lo tal como é? Por isso, sinto um halo de graça quando vejo a esperança visitar o mundo. Afora as ilusões, só a generosidade é capaz de acolher a esperança.

Talvez o próprio Camus dê uma pista neste “Caderno”, sendo ele um filósofo, e sabendo, como nós todos, que nós filósofos sofremos da vaidade intelectual como pecado capital. Camus diz que “a obsessão em ter razão é a marca suprema de uma inteligência grosseira”. Portanto, talvez, a humildade, virtude capital para Camus, seja a esperança para a filosofia.

Ou, como dizia Santo Agostinho, o que falta ao filósofo é chorar.


Luiz Felipe Pondé  (jornal FSP – 12.05.2014)   |   Outra fonte para este artigo: AQUI



** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **


“True philosopher” (05.05.2014)

•12/05/2014 • Comentários desativados

Rust Cohle ilustrado por Nagy Norbert

Ilustração de Nagy Norbert


“Há uma luta entre a luz e as trevas”, diz o detetive Rust Cohle (Matthew McConaughey) na série True Detective, na última cena do último episódio da primeira temporada.

Já disse e repito que as séries americanas são hoje, de longe, o maior experimento dramatúrgico nos EUA, porque o cinema americano quase não existe, derretido pelo medo do politicamente correto, esta praga que em breve terá destruído toda a criatividade ocidental, à semelhança da arte soviética. Qualquer artista que submeta sua arte ao projeto “para um mundo melhor” é um artista ruim.

A ideia de que há uma luta deste tipo é comum à filosofia, teologia e literatura. Dostoiévski diz algo semelhante nos Irmãos Karamazov: “Há uma luta entre Deus e o Diabo e o placo é o coração humano”.

Nos “Manuscritos do Mar Morto“, textos judaicos datados do período em torno do nascimento da era cristã, encontrados em cavernas do mar Morto nos anos 40, afirma-se a mesma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Nathan de Gaza, século 17, “profeta” do falso Messias Sabatai Tzvi, dizia que o mundo, assim como a alma de Tzvi, um melancólico, era dilacerado por forças antagônicas de luz e trevas. Vejo nisso uma poética da agonia como habitat da alma humana.

Rust Cohle é um detetive filósofo típico da tradição que vai de Sam Spade (interpretado por Humphrey Bogart) a Philip Marlowe (interpretado por Elliott Gould e Robert Mitchum). Niilistas, todos eles trazem a marca de uma visão pessimista sobre a humanidade.

Cohle, no primeiro episódio, afirma que é pessimista (e define essa condição como sendo “ruim em festas”). E afirma sua “cosmologia”: a consciência humana é um erro da evolução. Segundo nosso “true philosopher”, todos pensamos que somos “eus”, mas somos apenas seres que arrastam essa ilusão em meio a uma programação genética que nos obriga a sobreviver. Um diálogo entre o niilismo nietzschiano e o determinismo darwinista de Richard Dawkins não seria muito diferente.


Ilustração de Jay Shaw

Ilustração de Jay Shaw


De onde vem esse pessimismo que dá a esses detetives um tom maior do que meros personagens à procura de criminosos? No caso especifico de Cohle, esse pessimismo vem de uma família de origem destroçada, de uma filha morta muito jovem, de um casamento destruído devido a esta morte, de muita bebida e muita droga, de quatro anos infiltrado no narcotráfico e de uma longa investigação entre satanistas, pedófilos “cristãos” e serial killers de mulheres (esta investigação é o conteúdo dramatúrgico dos oito capítulos da primeira temporada).

Entretanto, sua grandeza não é redutível às suas “pequenas causas” psicológicas. Se assim o fosse, ele seria apenas um deprimido. Sua grandeza como personagem se dá devido ao modo como ele constrói, a partir de sua miséria pessoal, um julgamento preciso da humanidade. Julgamento este que impacta por sua possível consistência.

Há uma questão maior aqui, e que une os grandes detetives nesta concepção niilista de mundo: a experiência com a (sua própria) natureza humana. Sim, natureza humana, este conceito que muitos “especialistas” teimam em dizer que não existe.

Não vou entrar nesta discussão sem fim, prefiro usar a ideia de natureza humana como “licença poética”. Há muito que não me importo com debates “especializados”.

Sabe-se bem, mesmo entre policiais na vida real, que a proximidade com a miséria humana mais pura pode levar alguém à descrença na natureza dos homens. Ainda que, como bem mostram esses três personagens, isso não impede virtudes como coragem, generosidade, sinceridade, doçura. Muito pelo contrário, muitas vezes é justamente a dureza do desencanto com a natureza humana e o sofrimento psicológico que ela traz no cotidiano (como no caso de Cohle) que possibilita tais virtudes.

A virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil. Máxima ignorada por todos que, principalmente em épocas do novo puritanismo político que assola o mundo da cultura, cantam seu amor e sua misericórdia pelo mundo e pelos que sofrem. O amor ao mundo deve ser escondido como uma pérola.


Luiz Felipe Pondé  (jornal FSP – 05.05.2014)   |   Outra fonte para este artigo: AQUI


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Beleza roubada (28.04.2014)

•29/04/2014 • Comentários desativados

Criado por © Pathfinder (sobre foto de Madison Gerritsen)

Criado por ©Pathfinder com foto de Madison Gerritsen


Há muito suspeitava que um dia as mulheres mais bonitas iam ser de alguma forma castigadas por nossa sociedade. Meu temor, em parte, se confirmou. Incluindo aí também um castigo para os homens mais bonitos. E por quê? Porque pesquisas recentes parecem provar que homens mais bonitos e mulheres mais bonitas têm mais sucesso profissional, e isso é “imperdoável” num mundo em que a inveja e o ressentimento fazem a política das nações. Vivemos numa era do ressentimento.

Claro, dirão que critérios de beleza variam. Sim, numa certa medida mais gordinhas hoje parecem estar em baixa. As magrelinhas podem fazer sucesso em passarelas e nos espelhos de lojas, mas nem sempre encantam o desejo de todos os homens. E mais: não creio que as figuras das “bruxas” deixem alguma dúvida sobre o que era “feio” (não me refiro às mulheres, muitas delas bonitas, que hoje se dedicam a cultos da Europa pré-cristã).

De qualquer forma, o livro “Beauty Pays: Why Attractive People Are More Successful” (A beleza paga: por que as pessoas mais atraentes são mais bem-sucedidas), de Daniel Hamermesh (indicado pelo excelente artigo do Valor Econômico), aprofunda o que é essa beleza que paga bem no mercado profissional. O artigo — Mercadores da Perfeição — parte da bela Marissa Meyer, CEO do Yahoo!, para discutir o novo problema a ser enfrentado pelos mais bem-sucedidos que forem mais belos.

Os burocratas dos tributos (em países como os EUA), parasitas que passam o dia pensando em como tirar dinheiro de quem produz dinheiro, já tiveram uma ideia incrível: taxar quem tiver mais sucesso profissional e for bonito.

Como será que esse personagem de Kafka (vejo-o como um rato cheio de formulários na mão) vai fazer para identificar a beleza como parte da razão de uma pessoa ser ainda mais achacada pelo fisco? Testemunhos dos “prejudicados” na carreira pela “injusta” beleza dos outros? O livro em questão, no seu capítulo oito, discute as possíveis “proteções legais para os feios”!

Difícil dizer, mas sem dúvida vão descobrir uma forma, porque o Estado está sempre aquém na “ponta da entrega”, mas sempre além da imaginação em competência na “ponta da arrecadação”.

A base do ódio organizado à beleza e à riqueza (travestido de taxação em nome da justiça “sócio-estética”) é o velho ressentimento. Nietzsche é um analista social e político muito mais sofisticado do que o guru Marx. Luta de classes é o “nome fantasia” do ressentimento que se tem contra os mais afortunados e mais competentes. É difícil aceitar que algumas pessoas sejam mais capazes e mais afortunadas (a velha Fortuna de Maquiavel, que, como toda mulher, ama a ousadia e a coragem) do que outras.

Adam Smith, pai da noção de sociedade comercial (ou sociedade de mercado), sabia que havia um risco de crescimento da “frouxidão” generalizada com o enriquecimento. Mas a contingência (ou acaso ou fortuna) que está na base da visão de mundo de Smith fere nossa sensibilidade de carentes.

Sua “cosmologia” não parece reconhecer uma ordem inteligente superior que equilibre de modo “justo” as diferentes capacidades pessoais. A famosa “mão invisível” equilibraria apenas os resultados totais da riqueza, mas não a inveja de quem é menos capaz.

A sociedade de mercado é uma ferida narcísica incurável para quem nela fracassa. E é difícil não ser, uma vez que todos somos infelizes e carentes em algum nível. Os “marcadores” dessas diferenças que ninguém quer dizer o nome (beleza, riqueza, inteligência, originalidade), acolhidas pela sociedade de mercado, são detestados pelo narcisismo carente, fonte inesgotável de ressentimento.

Portanto, a psicologia nietzschiana do ressentimento deveria ser mais levada a sério quando se discute política no mundo contemporâneo.

Dica: o ódio às belas, rancor atávico das feias, o ódio aos mais capazes, rancor atávico dos menos capazes, nunca foi descrito de modo tão claro como pela filósofa Ayn Rand em seu “Revolta de Atlas” (uma das referências bibliográficas que nossa universidade nega a seus alunos), livro antídoto às mentiras do ressentimento. Leia


Luiz Felipe Pondé  (jornal FSP – 28.04.2014)   |   Outra fonte para este artigo: AQUI


Coco Rocha & Behati Prinsloo for "Senhoa"Coco Rocha & Behati Prinsloo for "Senhoa"

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